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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Constância

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  Normalmente entendemos constância como o que não muda, e em relação a pessoas são aquelas que são fieis, que mantêm propósitos, compromissos e desejos. Nessa abrangência a constância é uma faca de dois gumes: ela diferencia, corta, separa e também limita.   Ser constante, manter propósitos pode ser uma maneira de negar o tempo, a passagem das situações, a mudança, e, assim, a constância é transformada em compromisso, em medo do próximo passo e proteção para os vendavais que transformam realidades. Torna-se uma cabine de isolamento e proteção que pode ultrapassar a imanência individual e colocar o indivíduo fora dos processos vivenciais. Os juramentos de fidelidade, como o clássico “até que a morte nos separe”, estão calcados em suportes negadores de circunstâncias e vivências, enfim, negadores de mudança.   A vivência contínua de constância impõe questionamentos. São antíteses que exacerbam propósitos e medos e questionam a coerência. Podemos perguntar se a ...

Dogmas e certezas

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  O estabelecimento de certezas é uma das maiores necessidades, assim como uma das maiores dificuldades cotidianas. Acreditar no que se percebe, no que se pensa, ou ainda, acreditar no outro ou em si mesmo é um processo que geralmente implica desespero e alienação.   Essa dificuldade cotidiana psicológica é também filosófica, epistemológica. Quando a continuidade dos processos é quebrada por introdução de referências a partir das quais se possa pensar, corrigir e também resumir dificuldades, rompe a Gestalt, a totalidade dos fenômenos, e, é assim que se distorce.   É bom lembrarmos de Aristóteles, cuja obra ainda é pilar do pensamento filosófico atual, apesar de propiciar distorções e divisões com suas “categorias lógicas” a priori. “ As dez categorias de Aristóteles são: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado, ações e paixões para classificar tudo o que existe. É a Teoria de Classe com seus agrupamentos e categorias, ...

“Os asnos preferem o feno ao ouro”

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  É atribuída a Heráclito a frase “os asnos preferem o feno ao ouro” . Essa frase pode ser pensada como uma máxima filosófica usada quando se quer resumir o que é imanente ou aderente ao humano. É também uma maneira de explicar os valores enquanto circunstâncias ou atribuição contingente. O feno, a fonte de alimento, é o básico. É o que permite sobreviver: basta ser mastigado, engolido, comido. O ouro pode permitir compra dos alimentos, mas por meio de instrumentos indiretos que destroem convergências naturais.   Valorizar o ouro mais que qualquer coisa causou a morte de Midas, que tendo seu desejo atendido pelos deuses, tudo que pegava virava ouro.   Perder de vista o que é imanente, estruturante do viver, gera deslocamentos. Faz com que o indivíduo seja inserido em um universo, um sistema de valores extrínsecos e aderentes. A grande transformação humana acontece quando o valor, o significado atribuído passa a situar e dividir comportamentos. Não é mais gostar ...

Panis et circensis

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  Perceber que o lúdico prepondera nas aspirações e desejos humanos foi decisivo para que estruturas estatais, governamentais e ditatoriais lidassem com os objetivos de domínio e submissão. Desde os tiranos romanos isso é uma constante. Reduzidos à satisfação de suas necessidades básicas biológicas de fome, sede, sono e atividade sexual, o vazio, a insatisfação se apodera dos homens. Viver para comer reduz suas possibilidades. Buscar comer um pouco mais é transformar sua vida em luta contínua para sobreviver, para caçar alimentos.    Esquecer essa submissão limitadora e despersonalizadora faz buscar diversões, leva a descobrir o lúdico como o que abre perspectivas e muda o jogo opressor. É a fantasia, a ilusão e a esperança, mas é também a perspectiva que humaniza. Adquirir perspectiva é uma maneira de, ao questionar limites, transformá-los, uma maneira de neutralizar os anestésicos, a dopagem realizada pelos sistemas despersonalizadores. Criar a próp...

Surpresas esmagadoras

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    Assistindo ao filme Norueguês Valor Sentimental , exemplar em descrever questões vivenciais geradas pela descontinuidade, perdas abruptas e não contextualizadas, pensei no impacto de acontecimentos avassaladores e imprevistos.   Surpresas são percebidas como esmagadoras quando quebram referenciais, levando o indivíduo a se sentir perdido, apartado do que o definia e situava. Essa vivência é abismal. Dificilmente recupera-se desse inesperado.   É comum, na infância, o desespero decorrente da morte dos pais ou de um dos pais. A terra treme e não há explicação para o súbito acontecimento. O desespero passa a ser frequente. Se perde a crença no que está diante, nada significa, pois a qualquer momento tudo pode sumir, desaparecer. Guerras, calamidades, perda do emprego do pai, enfim, transformações sociais, cataclismos climáticos e infinitos acontecimentos psicológicos descontinuam a vivência do estar no mundo com o outro. Essa descontinuidade gera medo, r...

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