Panis et circensis
Perceber que o lúdico prepondera nas aspirações e desejos humanos foi decisivo para que estruturas estatais, governamentais e ditatoriais lidassem com os objetivos de domínio e submissão. Desde os tiranos romanos isso é uma constante. Reduzidos à satisfação de suas necessidades básicas biológicas de fome, sede, sono e atividade sexual, o vazio, a insatisfação se apodera dos homens. Viver para comer reduz suas possibilidades. Buscar comer um pouco mais é transformar sua vida em luta contínua para sobreviver, para caçar alimentos.
Esquecer essa submissão limitadora e despersonalizadora faz buscar diversões, leva a descobrir o lúdico como o que abre perspectivas e muda o jogo opressor. É a fantasia, a ilusão e a esperança, mas é também a perspectiva que humaniza. Adquirir perspectiva é uma maneira de, ao questionar limites, transformá-los, uma maneira de neutralizar os anestésicos, a dopagem realizada pelos sistemas despersonalizadores. Criar a própria festa, descobrir o que amplia suas possibilidades é ter perspectiva criadora e antíteses ao que oprime.
Quanto maior a sedação, a expectativa de salvação por meio de preces e sacrifícios religiosos, maior a desumanização. É como se o homem abrisse mão de seu chão, suas terras, para buscar e se agarrar a reinos de céus inexistentes, tentando aplacar sua fome, medo e revolta criados pelas não aceitações diárias às quais é submetido pela exploração e diferenças econômico-sociais.
Frei Betto, em uma entrevista a Fidel Castro, lhe disse que “o contrário do medo não é a coragem, mas a fé”. Nesse sentido, a fé é o que abre perspectivas, pensava ele. Mas, dizemos nós, o contrário do medo (omissão) é a participação.
A fé geralmente é estabelecida em contextos religiosos quase idênticos aos geradores do medo, das omissões, à medida que, considerando o não existente, espera resolver o que transtorna. Assim, ela é usada como amortecedor e adiamento sob forma de embuste (ilusões e esperança), que desvirtuam e neutralizam contradições. Não foi à toa que Marx afirmou que “a religião é o ópio do povo”.
Quando se mostra o lúdico e o bem-estar, não como vivência do presente e participação, mas como fundamento para o existir, se busca a alienação e o controle. Vida é contradição que não pode ser sedada por mentiras e promessas, sejam as do sonho da casa própria e da felicidade eterna, ou, a eterna busca da alma gêmea. Quando o indivíduo é obcecado, ativado pelo que vai anestesiá-lo e intoxicá-lo, ele está submetido, alienado a fim de que sejam cumpridos interesses dos dirigentes ditadores, autoridades familiares, em suma, dos detentores do poder desumanizador.
Tirar o foco, distrair a atenção, criar pseudoproblemas e pseudossoluções são técnicas e atitudes que desumanizam. Metas são estabelecidas, torneios e competições criadas e mantidas como forma de negar ou amenizar os conflitos, que se fossem enfrentados propiciariam mudanças. O uso de drogas, o vicio em prazer e bem-estar são frequentes nesse estar no mundo de maneira hedonista.
O lúdico deve ser constante resultado da participação, da vivência do presente. Estar aqui e agora com o outro abre perspectivas, cria dimensões integradoras, resolve antíteses ao apreender contradições, ao exercer suas infinitas possibilidades humanas, evitando adaptações ao que desumaniza e aniquila. Não basta estar bem alimentado, não basta estar sedado. É personalizador estar acordado, não anestesiado, para enfrentar o que o intoxica, seda e aliena.
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"Para haver mudança não basta vontade e desejo de mudar, são necessárias antíteses, situações, realidades que se antagonizem" - Vera Felicidade, in: Emparedados pelo vazio - Bem-estar e mal-estar contemporâneos
"Transformar o indivíduo que está impermeabilizado em participante, via enfoque psicoterápico, é criar novos encontros, novas configurações" - Vera Felicidade, in: Autismo em perspectiva na Psicoterapia Gestaltista




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