“Os asnos preferem o feno ao ouro”


 

É atribuída a Heráclito a frase “os asnos preferem o feno ao ouro”. Essa frase pode ser pensada como uma máxima filosófica usada quando se quer resumir o que é imanente ou aderente ao humano. É também uma maneira de explicar os valores enquanto circunstâncias ou atribuição contingente. O feno, a fonte de alimento, é o básico. É o que permite sobreviver: basta ser mastigado, engolido, comido. O ouro pode permitir compra dos alimentos, mas por meio de instrumentos indiretos que destroem convergências naturais.

 

Valorizar o ouro mais que qualquer coisa causou a morte de Midas, que tendo seu desejo atendido pelos deuses, tudo que pegava virava ouro.

 

Perder de vista o que é imanente, estruturante do viver, gera deslocamentos. Faz com que o indivíduo seja inserido em um universo, um sistema de valores extrínsecos e aderentes. A grande transformação humana acontece quando o valor, o significado atribuído passa a situar e dividir comportamentos. Não é mais gostar de ouro o que significa, mas, possui-lo. É o valor adquirido, agregado. Quando isso ocorre, tudo vira mercadoria, objeto, e, assim, o processo de despersonalização se concretiza. A aparência, os nomes, os rótulos passam a determinar tudo. As escolhas são estabelecidas, criticadas ou aprovadas. A artificialidade predomina. Importante é o que parece ser, não o que é. Nesses parâmetros encontramos desespero, inautenticidade, artifícios, maldades e guerras. Ser é parecer. Aparência é tudo e passa a configurar o próprio existir. Inautenticidade, engenhos, artifícios é o que nos rodeia, é a distopia atual na qual viver é sobreviver comendo feno que esconde fragmentos de ouro, ou assimilando ouro para absorver um pouco de feno alimentador.

 

Inversões, esconderijos e desamparo caracterizam esse viver distópico, alienado e alienador. O que existe são mentiras e falácias criadas pela manutenção do “salve-se quem puder”.


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 "Como bem nos alerta a dialética, o homem se desenvolve mesmo na alienação" - Vera Felicidade, in: Tudo é relacional - Causalidade nada explica 

"Para haver mudança não basta vontade e desejo de mudar, são necessárias antíteses, situações, realidades que se antagonizem" - Vera Felicidade, in: Emparedados pelo vazio - Bem-estar e mal-estar contemporâneos 

 "Transformar o indivíduo que está impermeabilizado em participante,  via enfoque psicoterápico, é criar novos encontros, novas configurações" - Vera Felicidade, in: Autismo em perspectiva na Psicoterapia Gestaltista

 

 

 


 


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