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Hybris e onipotência

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A não aceitação de limites possibilita vários deslocamentos, um deles consiste na tentativa de ultrapassar o limite. Essa desconsideração do que está diante é gerada pela onipotência oriunda do autorreferenciamento. Ao se perceber impotente, surge aceitação ou não aceitação desta vivência. Recolhimento ou exacerbação vão caracterizar esta constatação. A onipotência é um deslocamento da impotência. Não existem duas situações: onipotência e impotência. A impotência não aceita e deslocada, configura a onipotência. A construção de imagens, máscaras aceitáveis é característica dos que vão além da própria dificuldade, atingindo bons resultados que camuflam e parecem neutralizar os limites. Gigantes de pés de barro nascem. Escorar-se nos bons resultados obtidos, exibí-los, é uma atitude indicativa de que problemas foram superados e assim agindo aumenta a necessidade de mostrar, de exaltar o conseguido. Na atitude onipotente, a vida é resultado, não é processo; não importa como foi c...

Limites e transformações

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Aceitar o limite é transformador. Quando a percepção muda, o que antes limitava passa a ser percebido como um contexto, como realidade na qual o limite está estruturado, ele já não é um obstáculo. Esta evidência gera mudança podendo criar, entre outras coisas, liberdade, responsabilidade e autonomia. Exemplifiquemos com algumas situações: uma do herói, outra do cidadão comum, outra do sobrevivente oprimido. Sísifo, apesar de mortal, desafiava os deuses gregos (era, ele próprio, filho de deuses e tido como muito inteligente e rebelde). Em uma das versões do mito, Sísifo é castigado por tentar salvar Prometeu, o titã condenado por Zeus por ter roubado o fogo para entregá-lo aos humanos. O castigo de Sísifo consistia em diariamente carregar uma enorme pedra até o cume da montanha, pedra essa que era empurrada de volta à base, obrigando-o a novamente carregá-la montanha acima dia após dia. Depois de muito esforço e desespero, Sísifo percebeu que seu castigo não era apenas levar a...

Monotonia

Quando o aderente é o fundamental o ser humano se escraviza ao que o aliena. O vício (não conseguir desempenhar suas funções, não conseguir viver sem estar alcoolizado; a droga como sedativo constante do sofrimento, da dificuldade de estar no mundo com os outros), o viver em função dos outros, ou em função das aparências, ou das instituições que dignificam, que conferem status são formas de aderência. Intrínseco, imanente é o constituinte, o legítimo. Imanente ao humano é sua possibilidade de relacionamento com os outros, consigo mesmo e com o mundo. Transformar esta possibilidade em necessidade de relacionamento, em carência * faz surgir aderência explicitada gradualmente em satisfação e insatisfação. Possibilidades exercidas não são quantificáveis ou " quando se trata de direito não há legitimidade ", como dizia Luypen, fenomenólogo holandês. Não se discute a legitimidade de caminhar, embora se discuta para onde se pode ir. Dirigir as possibilidades para ...

Despersonalização

Despersonalização é o que acontece quando se vive para ser ou não ser o que os outros (pai, mãe e mais tarde os amantes e amigos etc) desejam que seja. As imagens construidas existem para compor os diversos personagens. Rebelando-se ou atendendo as expectativas ou imposições, sendo ou não, o que se espera que seja, o indivíduo se circunstancializa, começa apenas a concordar ou a discordar com o que lhe é proposto; surgem os enquadrados, ajustados e os revoltados, enfim os marginais. Ambos estão cooptados pelos sistemas, ambos sem autonomia. Não questionam, não fazem perguntas apenas respondem, reagem ao proposto.  Este processo não cria individualidades, entretanto, estabelece espaços, posições, direitos e deveres que demarcam e estabelecem seus caminhos e motivações.  A permanência destas aderências, destas "externalidades" inicia o processo de despersonalização. Vive-se para conseguir realizar propósitos, atingir situações à partir das quais pode ser alguem so...

Impasses e conflitos

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Para a psicoterapia gestaltista, neurose é um processo que se caracteriza pela não aceitação. Os relacionamentos familiares trazem padrões sociais significativos de acertos, erros, coisas boas e coisas ruins. Os resultados alcançados são compilados, e comparados; as pessoas são elogiadas ou criticadas, rejeitadas ou aceitas, mas sempre dentro de padrões. Neste processo se estrutura a experiência da não aceitação enquanto individualidade ao mesmo tempo em que se estrutura a aceitação ou não aceitação enquanto acertos ou erros determinados pelos padrões. Assim estruturados não há aceitação como individualidade, mas sim como indivíduos que acertam ou que erram. A pessoa não se sente aceita pelo que é mas sim pelo que pode ou não conseguir e consequentemente, não se aceita mas quer ser aceita. Para conseguir tal incoerência - não se aceitar e querer ser aceita - ela tem que camuflar o que não aceita em si, enganar, esconder, mentir, ousar e tentar. Neste jogo surgem sintomas, pos...

O silêncio da maioria

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Do ponto de vista psicológico, como entender o surgimento e manutenção de ditadores, torturadores, poderosos corruptos e genocidas, exploradores de toda ordem? Da mesma forma que entendemos o delator, o desesperado, o omisso, o submisso: pelo processo da não aceitação. Não aceitação não é algo quantificável, não existe não aceitação maior ou menor. Da dona de casa, mãe e esposa, do pai, trabalhador e marido, do adolescente ao jovem estudante até aos abusadores de poder (políticos, religiosos, patriarcas etc), a não aceitação é o denominador comum da inautenticidade, da desonestidade, da maldade. Não se aceitar e querer ser aceito é um movimento contraditório, paradoxal. É a desonestidade, o disfarce, a inautenticidade. No processo da não aceitação, por tudo que viveu, ouviu e fez, pelo esforço satisfeito e insatisfeito, o homem percebe que ele só vale se aparentar ser o que não é. Através do disfarce consegue enganar e, ao esconder o que ele considera precário, realiza sua so...

A certeza como engano

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Certeza, crença, convicção, dúvida, além de constantes na vida psicológica são temas tradicionais das discussões teológicas e da reflexão filosófica, amplamente conceituados e sistematizados nas várias teorias, tanto na religião, quanto na filosofia e na ciência. Para nós, a certeza é um estado psicológico que se caracteriza por impermeabilização que impede a dúvida. A unilateralização das vivências e desejos se constitui para muitos, em um porto seguro, uma âncora que garante não ser arrastado pelos ciclones das mudanças e da impermanência. Ter certeza, jamais se questionar, jamais duvidar das próprias convicções ou da visão que tem de si é uma tentativa de evitar a ameaça da impermanência e a hesitação que a acompanha, é uma maneira de manter-se focado nas próprias metas. A instrumentalização das possibilidades, a instrumentalização da crença de ser honesto, bom e capaz como um a priori, por exemplo, impermeabiliza. Manter a priori, instrumentalizar habilidades ou c...

Prazer, sedação e repetição

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Tudo que é humano só pode ser globalizado se considerarmos que o biológico é a estrutura suporte de toda vivência relacional, perceptiva, psicológica portanto. Não havendo esta globalização, surgem os elementarismos, os causalismos e pontualizações acerca do que é humano, através, por exemplo, dos conceitos de natureza humana, instintos, dados culturais como construtores de humanidade. O que seria prazeroso para o humano, o que propicia prazer às pessoas? Satisfazer suas necessidades ou ampliar suas possibilidades. Prazer, como satisfação de necessidades, é o alívio, a diminuição da tensão, apontando sempre para sedação. Prazer como ampliação de possibilidades, transcendência de limites das necessidades por exemplo, leva sempre a integração e a fusão. Os principais prazeres responsáveis pela sedação de necessidade se referem a sexo e drogas. Sexo como aplacamento e drogas (alcool, maconha, cocaina, crack, tranquilizantes etc) como aplacamento e desaparecimento de tudo...

Inveja

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O deslocamento dos desejos não realizados, a não aceitação da não aceitação, estrutura a inveja. Invejar é desejar ser o outro a fim de ter, de vivenciar o que ele vivencia, ser o que ele é. Oprimido, compactado, enquistado pela não realização de desejos, explode. Chamamos esta explosão de inveja. Criou-se um novo ser. O ser humano enrodilhado pelo autorreferenciamento, enquistado pela vivência sobrevivente, precisa, apesar de seu isolamento, se relacionar, mas isto não é instantâneo, não é espontâneo, tem que ser construído consoante os referenciais de não aceitação; então ele explode, surge o duplo, um aliado construído para sobreviver. É o invejoso que espera, através da instrumentalização de tudo que está à sua volta, carrear recursos para viver bem, viver satisfatoriamente. Fazendo psicoterapia querem mais instrumentos, mais ferramentas para consertar o errado, as falhas da máquina sobrevivente. Para construir e cuidar deste novo posicionamento, muito esforço é necessário...

Somatização ou descorporificação

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A percepção do corpo, no contexto do presente, é instantânea e responsável por sentirmos bem-estar/mal-estar. Percebo meus músculos, meus nervos, tendões, percebo o movimento muscular, percebo volume, densidade. Quando o contexto destas percepções, o meu corpo, é prolongado em outros referenciais que não os do meu corpo, surgem os significados, surgem as categorizações. Destaco o meu corpo e o observo, avalio, instrumentalizo. Esta descorporificação se constitui no que é conhecido como somatização. Quando meus músculos tremem, percebo-os tremendo; caso me posicione, destaque o tremor e com ele comece a me relacionar, aparecem os prolongamentos perceptivos tipo: meu corpo está tremendo, é falta de cálcio, é stress, ou meu medo está se exteriorizando, tenho de escondê-lo etc. Estes posicionamentos passam a significar. São índices contabilizados enquanto aceitação ou não aceitação. Quebrou-se a continuidade. É a descorporificação ou somatização. O processo de descorporificação estab...

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