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Piedade

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      Atitudes piedosas são raras atualmente, pois para exercer piedade é necessária a percepção do outro enquanto outro. Na luta cotidiana é praticamente impossível encontrar olhares ou atitudes piedosas. Aceitar a limitação alheia, mesmo que ela implique em prejuízos e danos, abrir mão de revidar e não ter raiva e, ainda, não querer vingança é o que permite ser piedoso. Aceitar a inveja e a agressão sofrida, como detalhe expresso por atitudes autorreferenciadas e caóticas possibilita exercer e sentir piedade. Para ser piedoso não é preciso estar no lugar do outro, é fundamental que se esteja no próprio lugar, com os pés no chão, sem medo e apreendendo as contradições humanas. Por isso, ser piedoso requer transcendência de dualidades, principalmente da percepção do outro como o diferente e estranho. 📕 Os livros abaixo e outros da autora estão à venda tanto na Amazon, quanto em várias livrarias online e físicas, assim como nos sites das respectivas editoras. Garant...

Freios, desvios e capotagens – limites a transformar

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    É fundamental a transposição de limites na velhice, na doença e quando falta recursos para sobreviver (pobreza crônica). Nessas situações o ser humano é quase impedido de desenvolver suas possibilidades relacionais, mesmo as de sobrevivência.   Envelhecer se caracteriza pela diminuição da própria funcionalidade, pela perda da visão e da audição, principalmente. É um comprometimento que atinge as possibilidades perceptivas, e sabemos que conhecer é perceber pelos sentidos. É a percepção que estabelece as possibilidades dos processos relacionais. Problemas motores e outros não são tão comprometedores do processo perceptivo, mas também precisam ser enfrentados. O aumento de limites físicos, motores e cognitivos compromete a disponibilidade, o ir e vir. Quanto mais sejam suportados, contornados por exercícios e aparelhos, maiores as transformações do que limita.   A manutenção das perspectivas de vida vão depender da superação e aceitação dos limites restri...

Transcendendo os limites dos processos adaptativos

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    Do ponto de vista biológico somos animais, os mais desenvolvidos da escala zoológica, mas animais. Arbitrar que a cultura, os aspectos sociais e psicológicos, a religiosidade e espiritualidade, enfim, que o processo civilizatório nos define não é suficiente para estabelecer diferenças, para nos tirar da esfera animal, da esfera de sobrevivência.   O que nos diferencia, então, dos outros animais? Por que não somos apenas animais? Por perguntar. É o questionamento, é o fato de ir além do que acontece que nos define e situa, que nos humaniza. A toda hora, todo dia, todo momento isso é feito, e também não é feito quando seguimos correntes, direções, quando agarramos respostas para sobreviver. Esse processo tanto é adaptativo quanto desumanizador. Nos torna cada vez mais adaptados e também desadaptados. A desadaptação é uma forma de adaptação, está sempre em função dos mesmos referenciais adaptadores. A adaptação é, nesse contexto, um equivalente da lei da gravitaç...

O que nos sustenta, derruba e constitui

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    Harmonia - ou saber o que ocorre - é fundamental para existirmos, mas é também o limite, é como estar entre quatro paredes.   Definir harmonia como saber o que ocorre implica em dizer que quando ela é valorada assim, ela pode ser sinônimo tanto de algo bom quanto de algo mau. Nesse sentido, viver em guerra pode ser viver em harmonia, assim como também pode ser uma vida em harmonia viver em brigas e situações cotidianas nas quais o grito, a agressão são constantes. O uso da palavra harmonia em sua abrangência sinonimiza certeza, junção, encaixe, é saber que o que acontece continua acontecendo, não importa se o que acontece é bom ou ruim.   Como seres humanos vivemos em universos de certezas: o dia é sempre mais claro que a noite, as ondas do mar ecoam. Vivenciar o que ocorre implica sempre em participação. Participar, fazer parte, coexistir, dialogar, perceber é constatação, mas é também prolongamento perceptivo: é pensar.   Estar diante do ou...

Agenciamento

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    Utilizar pessoas e situações para os próprios interesses e conveniências é oportunismo, é transformar a própria incapacidade em condição e em estimulo para usar e roubar. É também aumentar o próprio processo de despersonalização. Em lugar de enfrentar os próprios impedimentos e incapacidades e transformá-los, o indivíduo usa e copia e assim adquire o que lhe falta. Esse processo de uso é a mentira e o engano.   Sociedades e também famílias são basicamente estabelecidas em função de manter os próprios meios, adquirir novos e propiciar melhoras progressivas a seus cidadãos ou membros. Esse propósito, para ser exercido, cria grupos, classes. Divide seus membros seja na sociedade, seja na família. Trata-se, por exemplo, do filho menor ou o mais fraco que precisa receber mais cuidados, transformando-se em alvo que desequilibra por criar divisão de recursos e de olhares, ele pode também ser visto como o improdutivo, o que atrapalha e consome sem produzir. Surgem div...

Vida entre parênteses

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       Frequentemente, por não aceitação de si, do que acontece e do outro, os indivíduos constroem “castelos de ilusões”, cercadinhos protetores e isoladores. Criar o pequeno mundo, o espaço onde se é soberano e onde tudo pode ser decidido, evitado ou aceito é um dos processos de coisificação, de se transformar em objeto, receptáculo dos próprios medos e anseios.   O autorreferenciamento tensiona tanto, que novas familiaridades como se fossem totens resultam dessa pontualização, desse colapso existencial. Deixar de movimentar-se conforme o que acontece, seja como tese ou como antítese do que ocorre – o que seria o ideal – confina e esclerosa possibilidades, isola o indivíduo, pois ele está colapsado. Estar dividido, viver em função de manter compromissos que salvam e alienam, que surgem do medo e da culpa é uma maneira de ser impermeável ao novo, ao que ocorre, à vida. Ideias e programas o situam enquanto a priori, pedras construtoras de isolamento são ...

Autômatos

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    Quando as pessoas se valorizam pelo que conseguem e realizam, elas são também, consequentemente, desumanizadas, despersonalizadas e esvaziadas de suas possibilidades relacionais, que convergiram para realização de propósitos e planos. Acreditam que viver não basta e que é necessário que se consiga deixar marcas de sucesso e realização, pois é isso que vai trazer felicidade.   Os contextos sociais, as sociedades em geral incentivam esses desejos, essa despersonalização, e de geração em geração criam o que é considerado sinônimo de felicidade e realização. No século XX, em sua primeira metade, valorizava-se ser feliz, encontrar o par romântico, formar família. O romantismo era considerado. A II Guerra Mundial corrói essa proposta, substituindo o romantismo pelo “cresça e apareça”, é o self-made man (lembrando que das mulheres não se exigia isso, estavam sombreadas pelo chefe de família). O utilitarismo e eficiência eram louvados. Na segunda me...

Controle

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       Controlar é a maneira pela qual se considera ter todos os pontos fracos resolvidos e os pontos fortes aumentados. Equivale a construir membranas protetoras. Esse tipo de proteção é também uma forma de isolamento. Saber o que é protegido leva à apreensão dos processos de isolamento estruturados pelo indivíduo.   Diante do medo, da omissão, da impotência em conviver com desafios se busca portos seguros onde ancorar desejos e propósitos. Nesse sentido, a judicialização do que ocorre é uma forma de controle dos imprevistos. Essa atitude é precária, pois sociedades mudam as leis periodicamente, os decretos e medidas provisórias são inesperadas ou imprevistas. Nesse sentido, contar com o certo é apostar no errado, é um apoio que falha. Diante do imprevisto, do indefinido se busca também redes de proteção: amigos e familiares. Essas redes frequentemente falham, não são consistentes, pois estão circundadas de ações imprevisíveis, de flutuações. Contar consi...

Balão de oxigênio

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      Aceitar ser vital ou fundamental para alguém é se coisificar. É virar o balão de oxigênio. É despersonalização e coisificação. De tanto ser útil, se nega como humano. É frequente essa vivência nas relações familiares principalmente entre mães e filhos e também a encontramos nas relações afetivas nas quais alguém se anula, se conforma, se reduz ao que é útil para ser aceito. Suportar, tolerar é frequentemente uma forma de omissão. Sacrifício e entrega não são atitudes que personalizam. A única atitude que personaliza é a da disponibilidade. É o dado relacional que cria novas configurações e permite que o novo seja o resultado do encontro. Assim, não há cais, não há amarras ou âncoras. Há oceanos de possibilidades responsáveis por novas configurações geradas por esse encontro, e desse modo as relações dinamizam. Quando isso não ocorre surgem posicionamentos, compromissos, apoios, vantagens, desvantagens e coisificação. 📕 Os livros abaixo e outros da autora estão ...

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