Posicionamento político
Atualmente se fala no
“pobre de direita”, acentuando a contradição que isso implica, que é a de querer
eleger quem o oprime e empobrece. É uma expressão antiga que foi reacendida em
discussões entre sociólogos e cientistas políticos. Para alguns a frase
descreve a realidade, a atitude daqueles que defendem políticos que vão contra
seus interesses de classe. Para outros é um termo pejorativo que aumenta o
preconceito contra a pobreza como condição incapacitante que, segundo eles,
impede os indivíduos desenvolverem pensamento crítico. Essa é uma discussão
frequente. Ideologias dominantes, aquelas atreladas a classes dominadoras nas
sociedades capitalistas, são passadas e mantidas na sociedade pelas escolas,
pela mídia, pelas religiões, que transmitem seus valores fundamentais, como,
por exemplo, a meritocracia, o empreendedorismo e o individualismo, que são
valores questionáveis.
A expressão “pobre de direita” denota vivências contraditórias. A questão é entender porquê isso acontece. Por que a realidade da pobreza massacrante não se impõe? A abordagem psicológica não pode ser preterida se queremos entender como sujeitos aderem a posicionamentos estranhos a seu universo vivencial.
É exatamente por abrir mão do que vivencia, por negar seu presente repleto de vivências de dificuldade e opressão - e que geralmente são significadas por desemprego e fome - é por viver em função de resultados, da busca de confortos e amenizações, que indivíduos em situações econômicas opressoras estruturam compromisso com o “chefe”, o “padrinho”, o “pastor”, enfim, o estabelecido e institucionalizado que eles supõem trazer melhorias. Achar que o candidato de direita salva e o de esquerda ameaça é cair na malha maniqueísta do inexistente: democracia versus comunismo, deus versus diabo.
O ato desesperado de se agarrar no que está acima - em qualquer coisa - é também o de perder a própria base, o chão onde caminha. Voar, ser sustentado e amparado, nesse caso, é sempre o início de queda, da despersonalização. A não aceitação da pobreza, dos limites da sobrevivência, e o desejo de sair disso antes de aceitar limites e contradições, cria desenraizados que começam a pisar em outros territórios diferentes dos próprios. É o autorreferenciamento gerado pelas metas, pela não vivência do presente. Assim sendo, só se enxerga o que se deseja viver ou evitar vivenciar. A não aceitação da própria realidade impede a percepção dela, e, consequentemente, não gera antíteses, mudanças. Apenas existem a dificuldade, a dor, a revolta, o desejo e o objetivo de sair das condições em que vive: é o autorreferenciamento.
Só existe antítese se houver um ponto de encontro. O ponto de encontro das contradições é a própria antítese, isto é, a configuração do impasse e da impossibilidade. No contexto das relações humanas, a percepção desse ponto de encontro, das contradições, permite aceitar o que ocorre, independentemente de padrões valorativos, necessidades de sobrevivência ou desejos de mudança. Se há negação do fenômeno, do que acontece, do dado relacional, é impossível o encontro, e, portanto, impossível a contradição, a antítese.
Desse modo, no contexto do autorreferenciamento, o outro como semelhante não existe, sequer é percebido, ele é apenas o que pode atrapalhar ou ajudar. Nada existe salvo a necessidade de sanar necessidades. Essa busca de resultados é a trilha, a busca do ouro e só isso interessa. Não há solidariedade ou participação, há apenas o comprometimento com o que se acredita ser bom para afirmação. Autorreferenciado, sem perceber o outro, o que é oferecido pelas plataformas políticas de direita é sedutor e solucionador. Assim, apostar no futuro, no próprio desejo, não perceber o outro configuram despersonalização ao estruturarem opressão: o patrão que esmaga mas dá brindes e presentes de natal é o caminho, é seguro, é a “cenoura na testa”. Esse é o pobre autorreferenciado, cheio de metas, mágoas, bons propósitos e anseios, que luta pelas propostas da direita, pois ela acena com um caminho que, ele acredita, vai beneficiá-lo. O semelhante, ele próprio, seu dia a dia de opressão e miséria são desconsiderados e esquecidos. O pensamento positivo, a fé e a crença possibilitarão emprego, poder e dinheiro. A ilusão, o desejo, o medo, as possibilidades de lucro e vantagens pela venda circunstancial de seu poder de escolha, de seu voto, abrigado e manipulado pelas plataformas de direita, estabelecem esse novo eleitor: o pobre de direita, caminho seguro para polarizações e decisões criadoras de falsos universos, mentirosas categorizações.
No autorreferenciamento, o outro, a comunidade, as instituições sociais, a sociedade enfim, são ignorados, e o indivíduo torna-se campo fértil para adesão a programas que propõem libertar-se de deveres e regras sociais, extinção de instituições reguladoras do processo social e democrático, ilusórias promessas de vantagens e ascensão para aqueles que se esforçam, que apostam em si, que ousam. Atitudes que mais isolam, afundam e marginalizam os que nascem na base da pirâmide. É nesse contexto, nesse solo, que nasce o pobre de direita.
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📘 "Para haver mudança
não basta vontade e desejo de mudar, são necessárias antíteses, situações,
realidades que se antagonizem". In: Emparedados
pelo vazio
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📕 "Transformar o indivíduo que está impermeabilizado em participante, via enfoque psicoterápico, é criar novos encontros, novas configurações". In: Autismo em perspectiva na Psicoterapia Gestaltista






Narrativa excelente!!!
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