Respeito




Recentemente, lendo o livro “No Enxame”, de Byung-Chul Han, encontrei a etimologia da palavra respeito: “respeito significa literalmente olhar para trás [Zurückblicken]. Ele é um olhar de volta [Rücksicht]”. O tradutor do livro, Lucas Machado, explica que “o termo alemão para respeito, Rücksicht, é composto pelos termos Sicht (vista, visão) e Rück, que significa, literalmente, 'de volta'. Assim, o autor indica que o respeito (Respekt), como o seu sinônimo de origem alemã Rücksicht indica, seria, literalmente, um 'olhar de volta', Zurückblicken, uma 'vista de volta' ao outro”.

Esse olhar para trás é quase que o olhar em volta, o perceber onde se está e o que existe ao lado. É perceber o outro e o mundo. Saber onde se anda, com quem se anda, o que se vê, o que sustenta, o que limita, o que apoia é considerar, é o olhar em volta que gera respeito. Perceber o outro, percebendo semelhança, dessemelhança, continuidade, descontinuidade cria referenciais situantes que permitem orientação, sinalização e diferenciação contextual. Tudo isso cria atmosfera de consideração, desconsideração, comunicação, respeito. Negar essa configuração, essa realidade é estabelecer-se solitário e, assim, nessa prepotência atingida pelo apagamento do que está existindo estruturado à nossa volta, negar o outro, negar seu espaço e vivência.

O processo colonizador, desde 1500 nas Américas, constantemente realizou negação do existente e desrespeito às formas de vida do semelhante/diferente. Coibir modas e modos por não coincidirem com modelos adotados é também desrespeitar, negar estruturas. O respeito cria comunidades harmônicas e mantém o outro enquanto próximo. Negar isso, desrespeita, é não olhar para trás, é não olhar para o lado, é manter o autorreferenciamento no qual tudo é percebido à própria imagem e semelhança. Essa atitude onipotente gera negação do outro, promove guerras e discórdias. Enfim, esse respeito ao chão que o outro pisa permite pisar consistentemente e encontrar congraçamento e alegria.

Essa simples coisa - respeito - esse olhar para trás e também em volta, se torna muito difícil para o onipotente, autorreferenciado, colonizador, dono da verdade, defensor de dogmas que ao serem universalizados destroem peculiaridades processuais, culturas, desejos e motivações individuais. O poder agir de outro modo diferente da maioria é uma complementação de painéis, que mostra as infinitas possibilidades humanas.

Sem o respeito, sem olhar em volta, sem olhar para trás, vai-se criando condenação de diferenças e consequentemente desrespeitos e negação das possibilidades dos outros, do diferente, promovendo medo e discórdia.

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