Garantia




Garantia é a repetição de certezas. A validade por meio do resultado é o lucro do que se investiu. Nesse contexto, a primeira regra para estabelecer garantia é criar e manter aparências que possibilitem acordos e acertos. Seguir e estabelecer os contratos sociais - das profissionalizações aos casamentos e acertos empresariais - cria locais, topos, cumes de visibilidade e assegura autoridade, tranquilidade e impunidade.

Garantir é enfeixar, é amarrar, instituindo critérios e termos nos quais as verdades soberanas e estabelecidas governam e decidem. É assim que se consegue transformar garantia em realização e sucesso. Não precisa ser, nada mais é necessário do que representar. E representar é duplicar seu espaço, ocupando-o pelo sublinhamento, pela ênfase de referenciais validados pela aceitação do que é considerado bom. A cabeceira de uma mesa, por exemplo, em determinada sala, é tão significativa e simbólica que já laureia e nobilita quem a ocupa, por isso é sempre desejada. Faixas titulares, normas atingidas por convenções mantidas estabilizam de tal forma que dispensam outros referenciais. O chefe, o doutor, o presidente, por exemplo, são emblemáticos e distinguem, definem situações independente de suas personificações: é o médico, é o padre, é o diretor, isso já diz e esclarece tudo.

Esse desaparecimento das pessoas, das individualidades, impressiona pelo agrupamento, pela coisificação que gera. O amorfo institucionalizado é mais significativo que as expressões instantâneas do vivido enquanto configuração aqui e agora de presenças e demandas.

É mais fácil decidir, seguir e assegurar-se, quando se está encaixado, sabendo em que cápsula se esconde, em que mastro se apoia. É mais fácil viver assim do que confiar, questionar e descobrir as próprias motivações.

Mas, desse modo, cedendo às garantias, se auto imola, se deixa queimar na gincana de quem pode mais, quem pode menos.

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