Ter um filho, escrever um livro...
A ideia de ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro é rica em propósitos de realização, mas, por incrível que pareça, é esvaziadora e despersonalizante, pois apresenta finalidades e realizações como justificativas para a vida, esquecendo e negando o existir.
Basta existir, estar no mundo com os outros. É o processo de aceitação de limites, das possibilidades e dificuldades que realizará ou destruirá a possibilidade humana. Se o estar no mundo não é suficiente, passa a ser necessário algo que o valide, e, procedendo assim, a vida é negada.
A Igreja, durante a Idade Média, tomou a si o sentido da vida e exigia respeito a ela – à vida – a partir de 10 mandamentos religiosos. Era o jeito de controlar e determinar o que deveria satisfazer feudos e reinados. Séculos depois, viver individualizado, personalizado por criatividade e produção – filhos, árvores e livros – é a maneira de manter as ordens protetoras do Capital, da riqueza. É também uma maneira de justificar porque se falha, porque não se fica rico. Assim, a cada dia busca-se o aproveitamento máximo, sonha-se com viagens, em conhecer todos os prazeres e experimentar bem-estar. O Estado Neoliberal precisa constantemente afirmar produtos. Por exemplo, mudar estrutura biológica transformando o aspecto físico cria novos conceitos, e, desse modo, amplia mercados. O paradoxo se instala: quanto maiores as aberturas, maiores os aprisionamentos, pois tudo depende de fios condutores que levam aos privilegiados.
A toca do coelho existe onde os limites estão escondidos, com seus puzzles diários criados para motivar no vazio daqueles produzidos pelas mentiras e verdades propagandeadas. Nesse cenário, muitos analisam essas circunstâncias como causas, mas não existem causas ou efeitos.
A titulação, a denominação situa e explicita: são algemas sutis que detêm autenticidade, liberdade e personalização. Trata-se de um aprisionamento que limita e define. É a distopia atual.
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"Para haver mudança não basta vontade e desejo de mudar, são necessárias antíteses, situações, realidades que se antagonizem" - Vera Felicidade, in: Emparedados pelo vazio - Bem-estar e mal-estar contemporâneos
"Transformar o indivíduo que está impermeabilizado em participante, via enfoque psicoterápico, é criar novos encontros, novas configurações" - Vera Felicidade, in: Autismo em perspectiva na Psicoterapia Gestaltista




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