O dentro e o fora
Toda vez que se estabelece a ideia de interno/externo surge o vazio. Essa delimitação de espaço, dentro e fora, cria absurdos ou resultantes imponderáveis.
Quando o ser humano se autorreferencia, ele estrutura um ponto de partida de onde tudo é percebido, pensado, experienciado. Esse ponto pode ser a própria sobrevivência, o sucesso ou a imaginada felicidade, geralmente traduzida por realidades óbvias, como: ter dinheiro, sucesso profissional, realização familiar, êxito nas crenças religiosas, ou até vivências mais específicas como as ligadas à sexualidade, por exemplo.
Encontrar algo que justifique, preencha ou valide a existência é uma maneira de preencher o vazio. Esse viver por, viver para, essa busca de realização é adaptação, estabilização esvaziada, pois mantém a distorção que a gerou: a não aceitação de estar no mundo com os outros, aberto às variáveis e infinitas vivências e ocorrências. É o fato de não suportar essa multiplicidade que cria as organizações (Estado), os grupos (família), as instituições religiosas encarregadas de suprir e estancar o inefável. Por isso, “dar nome aos bois” e ordenar para manter é a solução arbitrada. A individualidade passa a ser uma peça trabalhada, estudada e planejada para os mais diversos encaixes. Não pode haver surpresas, pois isso é quebra da ordem. Classes econômicas, padrões e regras precisam ser mantidos para que tudo funcione.
Genericamente, cascas, cortiças são fundamentais, pois a seiva desliza, mas as cascas, aparência, pertencimento, no caso do humano são desvitalizadoras. Sempre que se organiza e se arruma é preciso esvaziar, criar lugares para que se possa ordenar, organizar, enfim, empacotar produtos.
Quando o indivíduo se adequa a certas realizações funcionais, ele abre mão de si enquanto individualidade. E assim, aparência é fundamental, é isso que passa a organizar e determinar os processos de adaptação. Ele se aliena, se esvazia e é apenas uma peça da engrenagem, que permite inúmeros encaixes, infinitas adaptações.
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