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O ser que é não ser

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Nas sociedades, famílias e grupos onde as diferenças não são acatadas e aceitas, são criadas uma série de graduações e maneiras de lidar com o díspar; são ferramentas próprias para aplainar diferenças, aparar farpas; são bitolas mais amplas ou mais estreitas. Estas atitudes ficam refletidas na linguagem cotidiana, das ruas às academias, das salas de jantar ao noticiário de TV, onde ouvimos: “o índio ideal é o índio um pouco civilizado, consequentemente o índio que não é índio mesmo” ; “o pobre educado, gentil é perfeito, é o pobre que não é pobre mesmo” . Tudo isto nos lembra o antigo dito escravocrata “negro de alma branca” e a idéia do bom selvagem (visão colonialista e etnocêntrica). Graduações são sempre baseadas em referências de completo/incompleto, inteiro/dividido, implicitamente bom, ruim, verdadeiro, falso. A pureza alegada, a construção “índio mesmo” , por exemplo, é uma rotulação que impede contato. Assim, tem que ter mistura de vivências para que haja invasão, mudan...

Discernimento

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É difícil existir discernimento quando se está preso ao passado ( a priori ) ou ao futuro (expectativas e metas). Todos os processos, todas as evidências são niveladas em função do que se deseja e assim, separar o joio do trigo fica impossível, pois a homogeneização é feita percebendo ambos como plantas que alimentam. Transformar problemas em justificativas é uma maneira de validar a submissão e acomodação ao que impede liberdade e crescimento. Manter as “ válvulas de escape ”, o uso do outro, as mentiras viabilizadoras de sucesso, por exemplo, gera hábitos, vícios que solapam o discernimento. Sucesso a qualquer preço cria teias, armações necessárias à consecução do planejado. Vivendo para o futuro, as avaliações e cogitações se referem sempre ao que ajuda ou atrapalha, tanto quanto transforma o apoio anterior em obstáculo que agora deve ser ultrapassado; cumplicidades e acertos são estabelecidos. Nestas estratégias se perde coerência e continuidade. A flexibilidade é transformad...

Previsibilidade

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Toda vez que os desejos e motivações de ser aceito, de vencer e conseguir são os determinantes do comportamento, a atitude dos indivíduos é previsível. Esta constatação rege a publicidade, tanto quanto os programas para angariar votos e criar plataformas eleitorais, por exemplo. Assim, transformados em peões, no grande xadrez das decisões empresariais e corporativas, é previsível o que o homem fará, o que lastimará, tanto quanto o que o deixará feliz e contido. Nas famílias, nas relações afetivas, no dia a dia das clínicas psicológicas, trabalha-se e vivencia-se estes resíduos. Descortinar o futuro, saber o que vai acontecer aos “amores felizes” torna-se um mero cálculo aritmétrico: somar, dividir, diminuir, multiplicar. De peões a números, da estratégia utilizada para massa de manobras à quantificação de seus resíduos, o ser humano é transformado em quantitativo. Substituído, reciclado, quantificado - tudo é previsível: doenças, exacerbações temperamentais,  acessos de viol...

Incongruência

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Todo empenho, objetividade e necessidade são neutralizadas quando situações incongruentes, inadequadas, surgem. Realizar o impossível, é impossível. Constatar este absurdo cria desespero ou gera impotência, tristeza, revolta, quando não se aceita o que está diante, o que está acontecendo. Esta vivência estrutura a constatação de que não se pode " apertar parafuso em papelão ", ela liberta e às vezes possibilita autocrítica. Pessoas inconsistentes, oportunistas não se responsabilizam pelo que fazem. É frequente encontrar tais pessoas no âmbito profissional; não adianta esperar que elas adquiram responsabilidade, já foram treinadas para despistar, não se responsabilizar pelos erros decorrentes de enganos gerados pelas falsas imagens veiculadas; é o conhecido " cara de pau ", nada o atinge, é blindado a qualquer coisa que não seja a própria conveniência, a própria vantagem. Nos relacionamentos íntimos, esta blindagem, as mentiras e irresponsabilidades produze...

Hipocrisia

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Mentiras, traições originam a hipocrisia, mas, a hipocrisia tem diferenciadores necessários: atitudes convenientes, solidárias, um fingimento constante; como dizia Tartufo " não há nenhum pecado se pecar em silêncio ". Mentirosos, traidores ao serem descobertos, desaparecem; metaforicamente são sementes que não geram frutos. Na hipocrisia, as benesses e colheitas prometidas são esperadas; disfarçar o evidente através de mentiras e traições é o que a caracteriza, gerando frequentes situações enganosas; é como caminhar no gelo: sólido ou fragilmente inconsistente a depender da temperatura sazonal. Ser enganado pelo que é familiar, pelo que é confiável, é demolidor: o sócio, o cônjuge que devagarinho tudo transfere para o próprio poder; o filho que se apodera de jóias e bens para financiar vícios e desejos; o que se coloca como amigo, mas se esquiva quando solicitado, os exemplos são muitos. Hipócritas são melífluos, amigáveis e prestativos no desempenho de seus planos e d...

Erro trágico e peripécias

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Tudo que é avaliado, medido implica sempre em erro ou acerto. Certas situações são tão óbvias que delas só deveriam resultar acertos, mas, mesmo quando se tenta "agir corretamente", sem questionamentos e sem globalizações se incorre em erro, que em alguns casos pode ser um erro trágico. Shakespeare, em o Rei Lear, retrata magistralmente o erro do soberano ao trabalhar com o óbvio e o evidente. Obviedade, evidência são recortes parcializantes do existente, recortes integrados nas estruturas das próprias avaliações (autorreferenciamento). O que se destaca só é globalizado quando percebido em função de seus dados estruturais (presente percebido no contexto do presente). O Rei Lear achava que duas de suas filhas expressavam amor filial quando escolheram o que queriam na divisão de seu reino; a outra filha, Cordélia, expressava desconsideração quando apenas se propôs a receber o que a ela se destinasse, afirmando que o amava "como corresponde a uma filha, nada mais, nad...

Mídia e poder

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Os mecanismos para mudar podem ser tão alienantes quanto os mecanismos de manutenção. A regra ou a imposição do “feliz natal” por exemplo, é uma forma de arregimentar ilusão, polarizar fragmentação em função de cruzadas midiáticas, consumistas ainda que solidarizantes. Propalar felicidade, liberdade ou atitudes de mudança e afirmação é iludir, é criar expectativas, vendendo de produtos a governos. Na pós-modernidade, o conhecimento, o saber é um produto que tem preço, consequentemente estrutura a pirâmide do poder, substituindo ideários e ideologias, reforçando títeres, comunidades e partidos: facções responsáveis pelo empoderamento e entesouramento a partir das demandas sociais. Oficialização e credibilidade de ocorrências, pouco tempo atrás eram validadas pela constatação do “Deu na TV, saiu no jornal, é fato” ; este referencial começa a ser falsificado, manipulado; os selos de garantia se ampliam. O selo, a embalagem, validam o produto. Nas redes sociais, por exemplo,...

Harmonia

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O sentido da impermanência, da finitude, só é aceito sem divisões através da coerência. Coerência é ultrapassar divisões, é, detendo-se no instante, transcendê-lo pela ultrapassagem dos limites, pela ultrapassagem dos propósitos. Neste sentido, coerência é iluminação, é destruição de sombras criadoras de espaços, de finitudes arbitrárias. Diante do outro, do dado, sem linhas de convergência ou de divergência, neutralizam-se direções, polaridades. É o equivalente do equilíbrio da chama da vela falado pelos iogues: impermanente e sutil. Esta vivência do presente continuamente presente é o que permite unidade. Sem divisão não há constatação, não há avaliação, existe apenas conhecimento, fruição da permanente impermanência, da continuidade do estar no mundo. Ser com o outro é o único definidor. Estar desvinculado de tudo e integrar-se no vivenciado é o que permite vida, sensibilidade, conhecimento. Sem esta vivência, a possibilidade humana é drenada nas contingências: vivifica co...

Nada se esgota em si mesmo

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É verdade, mas as coisas se esgotam em si mesmas enquanto vivência; esta inevitabilidade é transformada pelos contextos, pelos processos. A continuidade, o relacional é o processo, o movimento, a dinâmica do estar no mundo. O que é feito, o que é realizado é único enquanto vivência, mas estabelece diferenciações, significados, deixa marcas. São as implicações, as resultantes, as decorrências no sentido da continuidade processual. Não é causa, não é efeito, são momentos, passagens e paisagens diferenciadas e diferenciadoras. No âmbito individual, tudo isto poderia ser relacionado ao processo de memória. Memória não é apenas um receptáculo de vivências, é também o start , o início de novas cogitações e considerações. A memória individualiza à medida que constrói, que estabelece o eu, o ego, referencial de individualização enquanto vivência - embora sem significação como possibilidade relacional devido a sua característica indicativa de registros e posicionamentos. Quando, à partir ...

Ajustes e regulações

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Padronizar, regular são adaptações necessárias que realizam o ajuste indispensável ao bom convívio, entretanto, isto pode apenas realizar opressão e submissão. Ao querer dar certo, ser eficiente, se utilizam modelos decorrentes de avaliações circunstancializadas, de esperanças e consequentes ilusões, desde que o padrão, as regras defasadas são transpostas: são anteriores ao vivenciado, são passado, são voltadas para o futuro, se referem a limites, espaços diferentes dos agora situantes. Este posicionamento expectante cria tensões, cria angustias e coloca o indivíduo à mercê de autorização, de validação alheia a seus contextos relacionais. Adaptar supõe sempre um propósito ou uma falha a ser corrigida. Os critérios de congruência e validade são fôrmas, moldes que esperam receber a "massa humana" e adaptá-la a objetivos genéricos, não individualizados. Ser moldado é organizador, adaptador, mas também aniquila a liberdade (autonomia). As regras do bem viver não pod...

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