Educação

A educação é necessária para organizar, sistematizar e desenvolver potencialidades, tanto quanto para “polir arestas”, possibilitando encaixes sociais e civilizatórios. Na reversibilidade dos processos, frequentemente só se consegue isso via matrizes sistêmicas, artefatos que se constituem em formas, receptáculos de contenção que modulam, contêm e reprimem dispersões idiossincráticas e anômalas.

Contradições não resolvidas, cerceadas pelos mecanismos educacionais transformam propostas individualizantes em regras massificadas. Hoje em dia, por exemplo, o “mens sana in corpore sano”, os ideais hipocráticos de saúde e estética, as transcendências preocupadas com equilíbrio e o bastar-se a si mesmo do Yoga, as ideias de autonomia e as descobertas psicoterápicas foram transformadas em kits de sobrevivência, moduladores midiáticos e comportamentais, nos quais o como fazer pragmático impera.

Educados para sobreviver e conseguir melhor status econômico e poder de manipulação, somos transformados em função de objetivos a realizar e neste ponto a educação desumaniza, consentida ou aleatoriamente. Kafka dizia que a educação o prejudicou em vários sentidos e mencionava os mestres que o orientavam e cobravam adaptações, transformações, exigindo que ele fosse diferente do que era, que convivesse com o que o alienava. Essas reflexões kafkanianas eram um grito, uma denúncia da integridade que desintegrava. Quando, no processo educativo, se enfatiza sinalizações unilaterais e valorativas, educar transforma-se em selecionar para possibilitar ajuste, adaptação e eficiência e o processo educativo passa a se resumir em regras e soluções de como fazer, deixa de ser fundamentalmente um processo de enfrentamento e vivência de contradições.

Educar é conduzir, é criar caminhos, é expandir, é fundamental para estabelecer desenvolvimento de condições restritas a referenciais polarizados em conseguir e não conseguir, em conhecer e desconhecer. Alcançado esse desenvolvimento, amplia-se o campo, o contexto e heterogeneíza-se o antes homogêneo, surgindo diferenciações criadoras de novos impasses.

É necessário vivenciar impasses, manter questionamentos, enfim, educar não é resolver, é problematizar: quanto mais se lê, por exemplo, mais se conhece e mais se percebe quanto fica por conhecer. Educação é um processo que cria condições de aberturas relacionais, de perspectivas. Ela não leva a nenhum ponto, apenas é isto: condição de exercer possibilidades sem se deter em necessidades sobreviventes. Estrutura-se, assim, disponibilidade e capacitação para o exercício de qualquer atividade, sendo também o início de questionamento e constatação de superação imediata, mesmo quando posicionado na administração de acúmulos e referenciais de saber fazer.

Mas educar é enfileirar, organizar e, consequentemente, homogeneizar dúvidas, incapacidades e criatividade; é um processo necessário, ferramenta que permite sociedade, civilização, no entanto, educar é, também, possibilitar desorganização, heterogeneização, desencadeando questionamentos. Não adianta privilegiar apenas um aspecto contido nesta reversibilidade ou esperar que questionamentos venham mais tarde - na vida adulta, por exemplo - à medida que o básico foi conseguido pelos processos educacionais. Desde o início do processo educativo, e sempre, a totalidade não pode ser reduzida às parcializações necessárias, sobreviventes e contingentes.

O ser no mundo pode caminhar, mas é necessário que encontre chão, que encontre espaços, é necessário que ele não ande em círculos, não seja cooptado em função de instituições educativas, enfim, que não se criem jaulas como forma de proteger e ser protegido.

Somos educados para consentir, deveríamos ser educados para o questionamento: para mudar a própria percepção do eu, do ego, por exemplo, que segue mantido por prêmios, elogios e aplausos dos educadores e pais. O ser bem sucedido é uma máxima anestesiante e padronizadora.


















- “A Memória, a História, o Esquecimento” de Paul Ricoeur
- “O Processo Civilizador” de Norbert Elias


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