De repente, o outro

 



Olhar para o outro, ouvi-lo estar atento a ele é uma das formas mais puras de generosidade, dizia a filósofa Simone Weil. Ouvir, deter-se diante do outro, olhar por olhar, ouvir por ouvir, estar diante sem a priori nem objetivo é raro, é difícil, é disponibilidade. Em psicoterapia, pelo treino e aprendizado psicoterápico se faz isso, entretanto, na vida, no cotidiano é quase impossível esse comportamento, pois o outro é sempre um acesso, um caminho, uma parede, um esbarrão e não significa enquanto encontro, embora só se realize enquanto tal. Perceber, ouvir, se deter é enfocar, é verificar e constatar, e essas são importantes etapas e caminhos de descobertas. É o enigma que se esclarece, é a mensagem que se lê, é o outro que se descobre, que se revela quando recebe atenção. Deter-se diante do outro, além de generosidade e descoberta, é encontro, é desafio. O outro quando ouvido deixa de ser enigma, deixa de ser antítese, é a descoberta que revela, é o texto que ensina, é o novo que aparece. Quando não se dá atenção ao outro ele é engolido em classificações: é bom, é ruim, é o rico, o pobre, o empregado, o patrão, o que tem que ser acatado, considerado, o que deve ser descartado, enfim, é um apoio ou um impedimento. Deixa de ser o outro e assim nunca será percebido, descoberto. Dar atenção, se deter, olhar o outro é descobrir o infinito de contradição, de aceitação, de rejeição existentes nos universos relacionais.

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