Arremedos

 



Imitar, copiar, repetir, plagiar são formas diversas de arremedar. Cópias rascunhadas, esboços, insinuações povoam o dia a dia. A mentira, as fake news, o parecer que é o que parece ser são arremedos de democracia, de ciência, de verdades diversas. Imitar para enganar é o que estrutura o ilegítimo, o mentiroso. Nas vidas pessoais, se pautar em parâmetros configuradores do "isso é certo, isso é bom, é o honesto" cria todo um mercado de ilegítimos, cópias que podem ser acessíveis a todos. Bens de consumo, mercadorias constituem o maior campo de imitação, cópias e arremedos. Visando a mentirosa participação de todos, degrada-se qualidade destruindo recursos naturais. O mais caro, o mais barato, o médio, tudo pode ser adquirido, não importa se o leite adulterado é 75% água, importa que pode ser vendido como leite. Essa imitação e invasão de estruturas quebra características e instaura outras direções: legítimo não é o que é, é o que parece ser. Ser ou parecer quando transpostos para a esfera individual criam muitas dificuldades: seja do enfoque (quem visualiza) seja da vivência. Ser o que parece ser é o objetivo do arremedo. A cópia se legitima pela não diferenciação da mesma. Na continuidade dos processos, observamos inúmeras superposições do arremedo. A confusão é criada. Tudo não mais pode ser configurado pelo seu estar aí, pelo seu estar assim. Necessário análise, prospecções e viagens históricas para entender o que ocorre e assim aumenta a abordagem causalista, aumenta a busca de determinação causal para entender os acontecimentos. Nada mais significa sem que sejam somados seus elementos configuradores. Perde-se totalidade, aumenta-se fragmentação e então é possível copiar, desenhar o autêntico, o livre: basta estabelecer quadrículas milimétricas e pedaço a pedaço reconstituir o todo. Desse modo, artes, espetáculos criativos são triturados e o homem, o humano vira um arremedo, uma cópia de si mesmo, desde que o todo jamais é a soma de partes. Inteligência fora do homem? Inteligência artificial é uma engrenagem que se consegue e nada significa a não ser como substituta de mão de obra onerosa e difícil tanto quanto realizadora de inúmeras complexidades destruídas por algoritmos esclarecedores. Os aspectos qualitativos não podem ser imitados, mas podem ser resumidos, copiados, quando transformados em quantitativos que diferenciam. Essa complexidade é a grande questão atual que rivaliza com o ser ou não ser.

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