Percepção do Outro - diante de mim o outro I

 


 

O outro diante de mim, essa é a grande constante do viver, do estar no mundo. Nunca se está só mesmo que o outro seja o objeto com o qual nos relacionamos, como: parede, floresta, cama, cadeira. Psicologicamente, enquanto imanência relacional, o outro me constitui. É exatamente aí que são definidos sujeito, objeto e comportamentos. Nesse processo perceptivo, a continuidade estabelece posicionamentos representativos de funções. Essas funções significadas por normas, regras determinam novos relacionamentos. Maria, a mãe, por exemplo, é ampliada pelo genérico mãe, cheio de significados, exigências, direitos, processos e história, regras e normas culturais, e então a mãe, antes de ser Maria, é também a continuidade de processos históricos, culturais, sociais, genealógicos. A mãe, assim, tem diluída sua totalidade na especificidade família. São os outros representativos além do constante processo diante do indivíduo. A reversibilidade dos processos, suas reconfigurações estabelecem permanência e também descontinuidade. Cuidar do filho, além de atender suas específicas demandas e protegê-lo, é também inseri-lo em processos culturais, sociais, familiares, e desse modo o outro próximo é também distante. Essa é uma das primeiras contradições. Educar, ser educado parcializa a totalidade do encontro. Essa característica é comum a tudo que se vivencia. O que completa, exclui, tanto quanto, às vezes, as exclusões complementam. Perceber o outro nem sempre implica em ser por ele percebido. Recíprocas não são instantâneas; sempre que há posicionamento se exila dinâmica, consequentemente interrupções aparecem. Esses intervalos se constituem em ilhas, separações que quebram continuidade. Esses processos estabelecem divisões que quando continuadas fragmentam e as fragmentações impõem a busca de polarizantes. A familiaridade, ao invadir os processos, cria regras, deveres e valores. O certo, o errado passam a ser anteparos a partir dos quais as preferências e satisfações integram sua estruturação. O outro pulverizado, fragmentado, embrulhado nos seus papéis sociais e familiares é o que se apresenta como definidor de relacionamentos. Os papéis, as embalagens são enormes ou frágeis, de qualquer forma criam novas configurações, e assim são estruturados diversos significados do outro.

Os diversos significados atribuídos ao outro decorrem do mesmo ser percebido como semelhante - igual - ou dessemelhante - diferente. A percepção de igualdade é tanto maior quanto menor o autorreferenciamento. No autorreferenciamento os indivíduos se sentem únicos, consequentemente nada lhes assemelha. Quando, em uma abstração, ele se iguala a alguma coisa, isso é instável, desaparece rápido pois o autorreferenciamento tudo exclui, tudo engole. O outro é percebido como ameaça ou como complemento. É o igual que completa, o diferente que ameaça. É um prolongamento, é um obstáculo. É desafio, é proteção. A apreensão e percepção do outro por sua utilidade, sua função estabelecida como positiva ou como negativa, é sempre resultante de um processo autorreferenciado. 

Sem autorreferenciamento o outro é continuidade do si mesmo, é apreensão perceptiva de possibilidades e de necessidades, significa enquanto dado relacional. É o além de mim, prolongamento estruturante da polaridade relacional: sujeito/objeto.

Sem o outro não se vive, essa é a constatação que dinamiza e permite continuidade do estar no mundo. Descobrir vantagem, funcionalidade e utilidade no outro é estabelecer submissão, servidão, exploração, coisificação, situações essas que são recíprocas ou unilaterais a depender das diversas configurações processuais. Nos processos autorreferenciados, nas diversas distorções perceptivas, nas quebras de continuidades relacionais são pregnantes as vivências do outro como ameaça, desafio, complemento (satisfação e necessidade), novidade (tédio), proteção (insegurança), exploração (sobrevivência), assim como 'o outro sou eu mesmo' (divisão, delírio, esquizofrenia) ou o outro é deus, magia, absoluto invisível.

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