Valor e afeto


 

A trajetória humana se desenrola, geralmente, em torno de valorizar e ser afetado. Uma das implicações desse processo é situar o indivíduo, o ser humano, como receptáculo, como reagente. Nada é próprio, nada é legítimo. Apenas cadeias e circuitos são continuados. Os causalismos deterministas aristotélicos, tanto quanto as quimeras platônicas povoam esse universo, são as balizas que se deve seguir. As orientações criam expectativas e metas; é sempre um além do dado, além do que acontece. Não se está solto, desencadeado, descontínuo. Família, comunidade, país, época representam valores que situam, apoiam e significam. 

Ir além do valor, ir além do situante, buscar novos referenciais é criar antíteses libertadoras e também aprisionadoras, mas é o que possibilita andar, descobrir, ser livre para novos valores e novos afetos. As contingências são limitadoras, pois visam apenas satisfazer necessidades e manter compromissos. Nesse sentido, a liberdade é sempre ilusão, visto que estar solto de A é estar preso a B. Não há como estar sem situantes, mas sempre se pode transcendê-los quando eles são questionados - processo necessário para transformação dos mesmos. É o cara ou coroa da humanidade, do indivíduo. Um conflito ilusório pois as alternativas são apenas lados da mesma moeda. Novas moedas, novos valores, novos mecanismos de troca é o que se tem buscado, seja sob a forma de mudanças sociais e políticas - monarquia, feudalismo, republicanismo, capitalismo, socialismo, democracia, anarquismo etc. - seja sob a forma de orientação, de afeto que guia - família, nação, sacerdotes, gurus; sempre moedas, sempre dois lados.

Estar no mundo, viver é constatar, defrontar, questionar, seguir, esperar, desesperar, conseguir, fracassar. Tudo vai depender de quais estradas, de quais caminhos são seguidos. Ao não se apoiar nos valores, nos significados, o novo se impõe; é o presente sem decodificação, sem tradução, que passa a ser um dialogante, um motivador, e então tudo é novo, instantâneo e significativo. O antes e o depois são ultrapassados, quimeras desaparecem e só assim valores são evidências e afetos são encontros.

Comentários

  1. Muito bom Vera. Arrasou!!! Como é difícil viver de forma consciente, ser livre e ter uma vida plena, com algum significado.

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