Apreensões e expectativas
Geralmente, as vivências de medo estão atreladas às expectativas. É lugar comum, é senso popular considerar que medo gera ansiedade e antecipação do futuro, ou seja, expectativa.
No entanto, o medo não pode gerar expectativa, pois ele é omissão, é a não vivência do que está ocorrendo enquanto presente. Ele se constrói pelo esvaziamento, por essa não vivência do que ocorre. Não vivenciando o presente, o contexto do medo é a antecipação do que pode ocorrer ou atualização de ocorridos. Desse modo, ele atua como uma borracha que apaga as inscrições existentes. É a criação do papel em branco que vai ser preenchido pelo que se teme e o que espera acontecer ou pelo que aconteceu. Ter medo é estar comprometido em salvar a própria pele, a própria vida, as imagens e patrimônios construídos. A associação do medo com compromisso é aniquiladora, pois se tenta juntar o que existe com o que deve permanecer existindo em um vácuo: o presente negado.
As expectativas de salvação e de superação do que amedronta não decorrem do medo. Elas decorrem de desejos, de metas. Essa superposição do futuro – o que se deseja, quer e precisa salvar – cai em um poço sem fundo, uma vez que o presente negado, a omissão, é um sorvedouro que tudo engole, fazendo desaparecer. Fica o medo, o vazio. Tudo é imobilizado, dinâmicas são estancadas.
Não vivenciar o presente ou estar omisso equivale a estar asfixiado, sem oxigênio. Não há nada, nem expectativa. Existe apenas o grito, o barulho do cair nas vertigens das constatações negadas.
Em outras palavras, o medo só existe quando se apaga a realidade, e, assim, se perde condição de agir e reagir, de estar no mundo enfrentando limites, ameaças e questionamentos.
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"Para haver mudança não basta vontade e desejo de mudar, são necessárias antíteses, situações, realidades que se antagonizem" - Vera Felicidade, in: Emparedados pelo vazio - Bem-estar e mal-estar contemporâneos
"Transformar o indivíduo que está impermeabilizado em participante, via enfoque psicoterápico, é criar novos encontros, novas configurações" - Vera Felicidade, in: Autismo em perspectiva na Psicoterapia Gestaltista




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