Expectativa, medo e ansiedade
Perceber o limite, o impedimento aos próprios desejos gera expectativa e ansiedade. A expectativa é sufocante: o que tem que ser transposto é percebido como uma muralha intransponível. Não se consegue transpô-la, entretanto, o desejo transformado em necessidade continua imperioso. Quando é essa a situação, ocorre divisão do que se vivencia. O que está acontecendo não deve e não pode acontecer – é o desejo. Mas, está acontecendo – é a evidência. Surge desespero. Apela-se para tudo: o sobrenatural, o ilegal. Das promessas aos protetores e santos invisíveis, agarra-se também o que não é seu. Inicia-se um processo de apossar-se, de roubar resultados, soluções e vivências de outras pessoas para aplacar o medo e a ansiedade. Quanto mais se nega o impedimento, mais ele esmaga, pois ao negá-lo são criadas invisibilidades. As possibilidades aumentam, tem que se combater o que acontece, o que aconteceu e o que poderia ter acontecido, sem conhecer o que está acontecendo.
Negar o existente neutraliza o presente. É uma magia que explode em omissão (medo), escurecendo e impedindo as possibilidades de saída, de superação do que limita.
Situações irreversíveis de doenças, falências, separações amorosas, quando aceitas, não geram expectativas, consequentemente não criam medos, não geram ansiedade, permitem pôr os pés no chão e andar. A mobilidade gerada pela aceitação dos limites cria novos caminhos e evita ansiedades e desejos, viver pendurado em nuvens que a todo segundo se desfazem.
Aceitar o que ocorre e dele participar é imunizador: exila medo, ansiedade e desespero cotidiano, abre novos caminhos, traz luz às trevas e mantém a integridade do estar no mundo com os outros.
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"Para haver mudança não basta vontade e desejo de mudar, são necessárias antíteses, situações, realidades que se antagonizem" - Vera Felicidade, in: Emparedados pelo vazio - Bem-estar e mal-estar contemporâneos
"Transformar o indivíduo que está impermeabilizado em participante, via enfoque psicoterápico, é criar novos encontros, novas configurações" - Vera Felicidade, in: Autismo em perspectiva na Psicoterapia Gestaltista




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