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Embaraço

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Alguns reencontros parecem revelar vivências tanto de estranheza, quanto de familiaridade.  Reencontrar o íntimo e familiar em novos contextos, causa embaraço. Existe reconhecimento, encontro, porém isto se dá em situações outras que não as do estruturante relacional anteriormente vivenciado. Equivale a um pentimento. Debaixo daquela pintura existe outra; na realidade, a anterior se insinua tão forte que embaralha, embaraça. O grande limite, o insinuado é um novo que só existe enquanto marcação anterior. Esta confusão requer renúncia, seja do que ocorre, seja do que ocorreu. O passado está problematizado, está encoberto e assim o presente é esvaído nas tessituras relacionais. Equivale ao choc au vide agora traduzido pelo choque ao ocupado. Estas vivências são frequentes no reencontro após descobertas: filhos que encontram seus pais depois de muitos anos, novas famílias; ocorre também nos reencontros de laços afetivos, tanto quanto nos reconhecimentos em situações limit...
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Despropósito

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Muitas vezes o despropósito é confundido com falta de motivação, virando quase sinônimo de depressão. Não estar contextualizado, sentir-se desintegrado e sem referencial específico, provoca a vivência de despropósito.  Sentir-se gauche na vida, fora de foco, à margem, só acontece quando se está autorreferenciado. Por sua vez, o autorreferenciamento cria outras variáveis: de diferente e excêntrico passa a ser destoante, inapropriado, substituindo a vivência de despropósito por vivência de inadequação, desajuste, rejeição. Despropósito, em alguns casos, origina-se de uma vivência de tédio, de distanciamento, pressupõe sempre uma crítica, um questionamento ao dado, ao posto, ao existente, mas também configura deslocamento de conflitos e não aceitações, anseios frustrados e problemas adiados. Participações políticas, celebrações familiares, por exemplo, suportadas, negociadas, mantidas, precisam atingir a dimensão de despropósito para que se realize a crítica e qu...

"Cara eu ganho, coroa você perde"

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Matthew Hopkins, era na Inglaterra do século XVII um caçador de bruxas. Dedicado a seu trabalho, desenvolveu um teste para detectar bruxas. Colocava um peso à mulher acusada - com pedras amarradas nela ou à cadeira na qual estava sentada - e jogava-a dentro de um rio ou lago. Se ela flutuasse, significava que era bruxa e merecia a fogueira; se afundasse e morresse afogada era por ser inocente. A necessidade de provas, os testes, por definição improváveis, impossíveis, povoam nossa sociedade, nossa vida, transformam nossos relacionamentos. Thomas Szasz, recentemente falecido, era um grande psiquiatra que lutava pela humanização do tratamento psiquiátrico, ele dizia: se der cara os rotuladores ganham, se der coroa os rotulados perdem. Em seu livro "Esquizofrenia, o símbolo sagrado da psiquiatria" , lemos: "O sujeito, o chamado 'paciente esquizofrênico', não tem o direito de rejeitar o diagnóstico, o processo de ser diagnosticado ou o tratamento ostensivam...

Aparência

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Aparentar gera sempre impossibilidades mesmo quando cria facilidades. Posições conquistadas, portas abertas, tarefas realizadas graças ao que se aparentou ser, saber ou ter, inicia um acúmulo de disfarces que também é simultaneamente o acúmulo de impossibilidades. Nas situações de ações decisivas, falta coragem e solidariedade, sobra engano e concessão. Na época em que passou a viver escondido devido a uma sentença de morte dada pelo Aiatolá Khomeini - governante iraniano - Salman Rushdie escreveu que muitas pessoas que o conheciam cediam ao medo e diziam que era respeito à autoridade, embora discordassem do absurdo de condenar à morte um autor pelo que escreveu. Existem pais e mães, aparentemente extremados cuidadores de seus filhos, que escondem suas impossibilidades de doação, entrega e amor, neste cuidado que vitimiza e aliena. Aparentar amor é um engano geralmente mais tarde substituído por enganosos prazeres: droga, caridade alienante, militâncias sacrificadas, abnegaçõ...

Corda bamba

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Toda avaliação do que se tem ou do que se pode conseguir gera insegurança, ansiedade, pessimismo ou otimismo a depender das estruturas relacionais. Esperança e expectativa se referem a um tempo futuro, um tempo não existente. Voltar-se para  além do presente dilui os referenciais das vivências cotidianas, das vivências presentificadas. Esta diluição de vivências torna difícil sustentar anseios e desejos. Sem a vivência presentificada não existe base para sustentar o desejado. Como transformar o sutil em denso? A fome de sucesso em fotos publicadas, por exemplo? A ambição em expressiva conta bancária? Através de agrupamento, que aumenta, adensa o tenuamente delineado, a meta. Munir-se de credenciais institucionais, adquirir respaldo familiar, empoderar-se para ter sucesso e vitória, permite resultados satisfatórios tanto quanto diluição e circunstancialização da individualidade. Passar no concurso depois de 10 anos de luta, ter a melhor posição dentro da empresa ao des...

Firmeza

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Atitudes estáveis implicam na realização de vontades. As motivações, as vontades são sempre resultantes do que se vivencia, do que se faz. Não têm ligação com faltas, necessidades ou desejos. Esta base, que é o presente vivenciado continuamente, gera firmeza, força e capacidade de realizar todas as vontades, tudo que é proposto pelo cotidiano; assim, firmeza é tão natural quanto querer andar e andar, querer dormir e dormir. "Desejo é o que nos falta, vontade não é o que nos sobra, mas é o que nos liberta se enfrentarmos, se vivenciarmos o dia-a-dia das contradições. Pela vontade, pela superação de contradições, pela transcendência, os limites da existência são superados, transformados ou integrados. Em psicoterapia procuramos recontextualizar os neutralizadores, os amortecedores das contradições, por meio de questionamentos, para que surja a vontade, a liberdade de mudar, a aceitação de si e dos outros." * Angustia, depressão, ansiedade não existem quando se vivenc...

Compatibilidade

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Pensar em compatibilidade como acordo, acerto, leva a relacioná-la com encaixe. Negociações e acordos sempre possibilitam discórdias, consequência natural de seus mosaicos organizados, suas arestas polidas. Confundir estas combinações com compatibilidade, gera muitos enganos. Nos relacionamentos, ao buscar o objetivo comum, satisfações e vantagens recíprocas, a primeira exigência a ser satisfeita é a neutralização dos sujeitos desejantes. Isto não é facilmente percebido tampouco de fácil entendimento, é uma situação complexa que se torna evidente depois do processo satisfatório dos desejos atendidos. O que unia as pessoas passa a ser o que as despersonaliza. Ficar com o outro pelo que ele é e não pelo que ele possibilita, exila do cotidiano a coisificação do outro usado para realização de necessidades. Uniões e motivações em função de conveniências, são sempre desastrosas e sem estruturas que suportem as vivências pois que são construidas para um futuro, sem alicerce no p...

Usura - desejo inesgotável

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" A carência afetiva, dentro da conceituação gestaltista, é intrínseca ao ser humano, ao contrário do que ocorre em outras conceituações psicológicas, psicanálise por exemplo, onde a carência é entendida como resultante de um processo deficitário de relacionamento afetivo, principalmente fundamentado no que se refere às figuras paterna e/ou materna. Quando dizemos que a carência afetiva é intrínseca ao ser humano, estamos dizendo que ela é tão configurativa do humano, como o são os olhos, braços, pernas, etc. Localizado o tema, focalizemos seu significado. Por carência afetiva entendemos a necessidade ou possibilidade de relacionamento com o outro; dentro desta nova compreensão (abordagem da carência afetiva), torna-se claro o porquê de sua colocação extrínseca, sinônima de problemática emocional, dada pelas outras teorias psicológicas, isto porque devido à falta de visão global unitária, ou seja, à esquematização elementarista do fenômeno comportamental e existencial humano, ap...

Pressentimentos e interpretações

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O insinuado é percebido enquanto prolongamento do que ocorre. Esta é uma das leis perceptivas postuladas pelos gestaltistas clássicos - é a Lei da Closura ou do Fechamento. O percebido é estruturado relacionalmente (é resultante da relação sujeito-objeto). Havendo preexistências que invadem o dado, o presente, o que ocorre fica nublado, fragmentado por desejos, medos e lembranças. Estes posicionamentos determinam as interpretações, as constatações e catalogam as vivências. No dia a dia da clínica psicológica, trabalhar com referenciais, com conceitos posicionantes - inconsciente por exemplo - gera interpretações, reflexões e conclusões redutoras das vivências, explicações estas baseadas principalmente na visualização dos desejos e dos medos. Frequentemente, o cotidiano das pessoas é invadido e estabelecido à partir de clichês  (que são closuras estabelecidas em outro contexto e reutilizadas) e à partir dos pressentimentos gerados pela transformação de índices em t...

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