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Reivindicações

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Olhar em volta e nada ver, este vazio, solidão ou desespero é resultante da falta de autonomia. O ser humano, enquanto organismo, não sobrevive sem autonomia, sem que o organismo realize suas funções básicas: assimilação/desassimilação, locomoção, sinalizações relacionais (cognição/percepção). O ser humano, como ser relacional, subsiste e coexiste com o outro. Quando este relacionamento é estruturado em autonomia recíproca, as relações fluem, existe disponibilidade; entretanto, quando falta autonomia surgem os apoios, as muletas ou usos, as adequações ou inadequações. Não querer ficar só, precisar de alguém, querer colorir o dia a dia, são sintomas desta dependência, desta falta de autonomia. Grandes sofrimentos, depressões por ser abandonado, desapareceriam se fosse percebida a fraqueza, o medo, o vazio a ser preenchido - não é o outro que falta, é o vazio que persiste. O espaço desocupado é a muleta quebrada ou roubada; vivencia-se a falta, o abandono, quando em verdade o que é sen...

Perguntas e Respostas

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Kafka em seu livro "Parábolas e Fragmentos" diz que não entendia como as perguntas dele não obtinham respostas, comentando ainda não entender como podia fazer perguntas. * Perguntas são fundamentais para questionamento e mudança, podendo também ser impeditivas de constatações e reflexões quando transformadas em busca de respostas substitutivas das próprias vivências. A pergunta deve resultar da dúvida, do questionamento, da antítese e não ser um recorte verificador de regras e padrões. Perguntar a alguém por alguma coisa é um direcionamento que supõe outras realidades além das configuradas. Esta expectativa gera necessidades responsáveis por familiaridade, estranhamento, dúvidas e certezas; cria e aplaca ansiedades. O estabelecimento de posições, o acreditar em delineamentos e descobertas, antes de qualquer coisa funciona como trincheiras, abrigos e caminhos a conquistar e desbravar. Este se por em cheque, faz aprender, adequar tanto quanto padroniza e adapta. Mata...

Intranquilidade

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Intranquilidade é a dificuldade de se deter no que se propõe, é também o determinante de ansiedade, carência e medo. Não conseguir se concentrar no que é vivenciado, a incapacidade de ser absorvido pelo presente gera ansiedade, gera medo; é uma falta que estabelece reinvindicação desejo e carência. A intranquilidade se constitui em dínamo, propulsão ao comportamento. Vive-se para realizar, para conseguir, para demonstrar que pode, consolidando-se assim a impossibilidade de se deter, ou seja, a não vivência do presente. Acontece que o presente existe e demanda presença, tem que se por os pés no chão. As drogas miraculosas são pára - quedas, artefatos que possibilitam as aterrissagens: o mundo desmorona, os próprios desejos são fantasmas, mas se consegue ficar calmo, aparentar bem-estar.  Em situações de intimidade, em situações limites onde a presença é necessária, os artefatos são dinamitados. A impotência, a incapacidade de lidar com os limites, expressa as ar...

Impedimentos

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Quando a constatação do que se quer, do que se gosta é vivenciada em estruturas apriorísticas, surge necessariamente a descoberta da impossibilidade, do medo e da dificuldade. Nestes casos, atingir o que se deseja só é possível quando se rompe o medo, o preconceito, quando se abre mão de garantias, certezas e vantagens.  Jogado neste embaralhado de desejos e medos, se inicia um processo de mudança, de se perceber de maneira nova, que pode ser liberador embora sempre conflitivo e fragmentador. Perceber as próprias divisões e contradições pode nada significar se isto é vivenciado de uma maneira fragmentada e circunstancial. A ultrapassagem dos conflitos pela realização do que se deseja, pelo rompimento da omissão, do medo, cria nova realidade, determinando vivências de encontro. Mudança é superação de padrões aprisionantes e limitadores. Abrir mão do inadequado é fácil, entretanto se torna difícil se ele for algo considerado bom, algo que traz alguma vantagem, que é con...

Renúncia - Unificação de Contradições

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A única maneira da renúncia se efetivar é através do desprendimento, da disponibilidade. Desapegar-se é um caminho para a renúncia, um caminho possível somente quando se é questionado no autorreferenciamento e suas implicações de motivações vivenciais. As garantias responsáveis pela satisfação de necessidades são também aprisionantes. Manter-se dentro destes referenciais neutraliza descobertas, implicando principalmente na renúncia à liberdade. A renúncia por apego ao que satisfaz impede a disponibilidade, impede a unificação das contradições opressoras, cria os renunciantes apegados, aqueles que buscam salvação através do bom funcionamento, da obediência constante e da salvação eterna. Desprendimento é a não avaliação, o largar; como já dizia o poeta "… e um gesto irônico ao que não alcanças" * Abrir mão, soltar, largar, não reter é renunciar. Aceitar limites só é possível quando se renuncia a metas, propósitos e desejos. Entender que a morte faz parte da v...

Embaraço

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Alguns reencontros parecem revelar vivências tanto de estranheza, quanto de familiaridade.  Reencontrar o íntimo e familiar em novos contextos, causa embaraço. Existe reconhecimento, encontro, porém isto se dá em situações outras que não as do estruturante relacional anteriormente vivenciado. Equivale a um pentimento. Debaixo daquela pintura existe outra; na realidade, a anterior se insinua tão forte que embaralha, embaraça. O grande limite, o insinuado é um novo que só existe enquanto marcação anterior. Esta confusão requer renúncia, seja do que ocorre, seja do que ocorreu. O passado está problematizado, está encoberto e assim o presente é esvaído nas tessituras relacionais. Equivale ao choc au vide agora traduzido pelo choque ao ocupado. Estas vivências são frequentes no reencontro após descobertas: filhos que encontram seus pais depois de muitos anos, novas famílias; ocorre também nos reencontros de laços afetivos, tanto quanto nos reconhecimentos em situações limit...
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Despropósito

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Muitas vezes o despropósito é confundido com falta de motivação, virando quase sinônimo de depressão. Não estar contextualizado, sentir-se desintegrado e sem referencial específico, provoca a vivência de despropósito.  Sentir-se gauche na vida, fora de foco, à margem, só acontece quando se está autorreferenciado. Por sua vez, o autorreferenciamento cria outras variáveis: de diferente e excêntrico passa a ser destoante, inapropriado, substituindo a vivência de despropósito por vivência de inadequação, desajuste, rejeição. Despropósito, em alguns casos, origina-se de uma vivência de tédio, de distanciamento, pressupõe sempre uma crítica, um questionamento ao dado, ao posto, ao existente, mas também configura deslocamento de conflitos e não aceitações, anseios frustrados e problemas adiados. Participações políticas, celebrações familiares, por exemplo, suportadas, negociadas, mantidas, precisam atingir a dimensão de despropósito para que se realize a crítica e qu...

"Cara eu ganho, coroa você perde"

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Matthew Hopkins, era na Inglaterra do século XVII um caçador de bruxas. Dedicado a seu trabalho, desenvolveu um teste para detectar bruxas. Colocava um peso à mulher acusada - com pedras amarradas nela ou à cadeira na qual estava sentada - e jogava-a dentro de um rio ou lago. Se ela flutuasse, significava que era bruxa e merecia a fogueira; se afundasse e morresse afogada era por ser inocente. A necessidade de provas, os testes, por definição improváveis, impossíveis, povoam nossa sociedade, nossa vida, transformam nossos relacionamentos. Thomas Szasz, recentemente falecido, era um grande psiquiatra que lutava pela humanização do tratamento psiquiátrico, ele dizia: se der cara os rotuladores ganham, se der coroa os rotulados perdem. Em seu livro "Esquizofrenia, o símbolo sagrado da psiquiatria" , lemos: "O sujeito, o chamado 'paciente esquizofrênico', não tem o direito de rejeitar o diagnóstico, o processo de ser diagnosticado ou o tratamento ostensivam...

Aparência

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Aparentar gera sempre impossibilidades mesmo quando cria facilidades. Posições conquistadas, portas abertas, tarefas realizadas graças ao que se aparentou ser, saber ou ter, inicia um acúmulo de disfarces que também é simultaneamente o acúmulo de impossibilidades. Nas situações de ações decisivas, falta coragem e solidariedade, sobra engano e concessão. Na época em que passou a viver escondido devido a uma sentença de morte dada pelo Aiatolá Khomeini - governante iraniano - Salman Rushdie escreveu que muitas pessoas que o conheciam cediam ao medo e diziam que era respeito à autoridade, embora discordassem do absurdo de condenar à morte um autor pelo que escreveu. Existem pais e mães, aparentemente extremados cuidadores de seus filhos, que escondem suas impossibilidades de doação, entrega e amor, neste cuidado que vitimiza e aliena. Aparentar amor é um engano geralmente mais tarde substituído por enganosos prazeres: droga, caridade alienante, militâncias sacrificadas, abnegaçõ...

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