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“Tenho tudo, não preciso de nada e nada me deixa feliz”

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“Tenho tudo, não preciso de nada e nada me deixa feliz, minha vida é vazia” é um desabafo que aparenta ser vazio e tédio, mas concluir isso é ilusório, incongruente. Jamais tédio e vazio  resultam de avaliação. A consistência da avaliação, ou seja, o enumerar possibilidades e neutralizar conflitos é a medida, o peso que tudo determina e contabiliza. Fazer a conta, pesar, medir, avaliar é estabelecer recursos, etiquetas e rótulos. Preencher espaços jamais enseja vazio e tédio. Nada ver, nada deter, nada sentir, esvazia e entedia, mas avaliar é um procedimento que obriga sempre a completar e quando isso ocorre não há o que fazer, a não ser renovar o processo, destruir e buscar complementar, enfim, iniciar novas avaliações que permitam constatar e não ter o que fazer, apenas manter o conseguido. Essa constante repetição é como Sísifo ainda na esperança de conseguir libertação. Como aconteceu com Sísifo, tudo foi entendido. Ficou claro que sua vida é fazer e refazer, mas ir a...

Utilizar, enganar, exibir

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Nas diversas dificuldades comportamentais, nas impossibilidades de convívio social, familiar e de trabalho, quando se deixa de lado as problemáticas, as não aceitações que definem e caracterizam o viver, nessas situações frequentemente é estabelecido um vazio, a despersonalização. Não se sabe o que fazer, salvo se entregar ao medo, à depressão, à inveja, à raiva e ao desespero. Nesse quadro, quando surgem pequenas melhoras de ânimo, os indivíduos resolvem disfarçar suas histórias, suas vergonhas, suas características. É o clássico ir à loja e comprar muito, para dissimular; é o clássico copiar e editar perfis, frases e comportamentos alheios. Não há critério para as utilizações, tampouco para os objetivos de enganar - o que se quer é ser diferente, exibir nova fácies, novo aspecto: cultura, riqueza, status . Mas viver tentando ser diferente do que se é, ocultando as próprias dificuldades, é índice revelador de problemas. As apropriações criam mais problemas. Não se sustentam, f...

Receios e cautelas

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Quando a vivência do futuro, a expectativa do que vai acontecer preside e organiza o cotidiano, o nível de insegurança aumenta. Tudo ameaça. Nenhum recurso pode ser esperdiçado. Para essas pessoas, viver é preparar o depois para quando não se consegue mais ter condições de agir. O medo de deixar filhos desamparados, a preocupação de ter uma velhice solitária ou sem ninguém ajudando, antecipa as próprias dificuldades temidas, que sequer são percebidas pois o indivíduo está instalado em seu futuro temido, ou almejado. Viver para, ou viver por, aliena, desestrutura, tira o chão, faz perder significado, pois tudo é colorido por amargura e medo. Não sabe o que fazer a não ser juntar dinheiro, amizades e condições para o futuro, por exemplo. Negar a própria vida e a própria realidade é uma maneira mágica de esperar recuperá-la mais tarde. Virar zumbi para conseguir sobreviver é um passo desesperado. Tudo evitar, tudo conseguir, tudo cuidar para ter condição mais tarde, é uma...

Credibilidade

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O que é crível, passível de ser acreditado, depende da facticidade respeitada, depende do que se constata e observa, tanto quanto depende também de quem e de como se veicula essas constatações e observações. As narrativas são as malhas que sustentam e amparam as constatações. Apenas constatar nada significa pois o relato das mesmas, o diálogo em torno do observado é invadido por outros referenciais, principalmente os que situam quem relata, quem reproduz os fatos, quando isso é feito e a quem é feito. Narrar um acontecimento é validado em função do narrador; sua importância, dificuldade, compromisso e disponibilidade o transformam em pessoa que pode ser acreditada, que é confiável ou que é alguém que apenas amealha desconfiança, não é pessoa de se acreditar, não tem credibilidade. A questão das coisas não significarem enquanto elas próprias é intrínseca - é a estrutura dos próprios processos. O símbolo invade o real, o real também se camufla no simbólico. Este vai e vem...

“Eu fui o erro que ele cometeu”

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“Eu fui o erro que ele cometeu” é uma frase que pode ser entendida como uma autocrítica, crítica, acusação ou constatação vitoriosa. Ter decepcionado, não ter preenchido as expectativas do outro, deixa clara a escolha errada, o convívio errado e falho. Insinuar-se para conseguir o que quer, desviando o outro de seus propósitos, trabalho e raízes para depois execrá-lo, sentir-se vitoriosa por destruir o outro é exemplificador de ganância, violência e maldade. Em algumas situações, perceber que o encontro com o outro se constitui em erro gera autocrítica por perceber como utilizou a confiança e crença do outro para consecução de objetivos próprios. A crítica ao outro pela escolha feita reside em tê-lo enganado. Buscar o outro para realizar objetivos e desejos, enganando, é mentir para conseguir viabilizar propósitos e no fim usar e destruir quem confiou e acreditou. De qualquer forma, se personalizar por meio do erro cometido pelo outro é muito comum nas situações na...

O herói

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O desespero resultante de suportar, de viver e escorregar na mesmice do indiferenciado, homogeneíza pela neutralização de contradições que são vivenciadas como necessidade de sedativos, de amortecedores ou criadores de bem-estar. Quanto maior o apaziguamento - a negação do que infelicita - por meio de crenças e esperança de melhoria, maior o desespero, maior a imobilização no que esmaga e tritura. No aclamado filme Coringa as sequências vivenciadas pelo personagem central são bons exemplos dessa situação. Na fragmentação, vivendo de sobras, resíduos de afetos mentirosos, o Coringa é comprimido e esmagado; entretanto algum alento, algo humano sobra. Tecendo impossíveis cordas para evadir-se, o personagem enlouquece e nesse processo descobre outros alienados também esmagados por submissão às máquinas trituradoras representadas pelos sistemas sócio-econômicos vigentes. Seus gritos e passos de revolta o transformam em herói. É o predestinado, quase o Messias, o milagroso que tod...

Humanidade

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Uma de nossas características mais marcantes é a possibilidade de perceber e categorizar e assim entender quem somos e como agimos, entender os acontecimentos e organizar nossa convivência, nossas vidas em comum. Criamos as regras, nos adaptamos aos valores e enfrentamos disputas, conflitos diversos, desvios, ameaças às definições que assumimos como definidoras de nossa humanidade. A capacidade de se sensibilizar com o outro é um desses pilares definidores. Ser afetado pelo outro não só demonstra que o percebemos, mas também que nos envolvemos com ele, nos dirigimos a ele, o cercamos, implicamos nossas vidas mutuamente, enfim. Que outro fundamento poderia definir melhor “humanidade”? Afinal não é ao conjunto, à vivência em comum, que esta palavra se refere? Mas conjuntos são abstrações conceituais e a humanidade é, supostamente, formada por seres humanos, por indivíduos. O indivíduo, para ser reconhecido como humano, precisa exercer, atualizar os valores que definem sua humanid...

Desejos - ausência de questionamento

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Cada vez é mais constante correr atrás da cenoura na testa, os incentivos, a exacerbação gananciosa como maneira de justificar, realizar e se sentir feliz por estar vivo. No sistema atual, o mais desejado é ter dinheiro, ser rico, ter segurança econômica para tudo realizar e fazer. Todos em função de ganhar dinheiro. Só se olha nessa direção, para cima. Não se enxerga o que está do lado, e assim todos se sentem iguais: buscam o mesmo objetivo. Querer a melhoria, querer ser rico, iguala. Todos estão irmanados em vencer ou vencer. Essa polarização unifica pessoas e situações díspares. Nessas motivações as diferenças sociais e econômicas pouco significam. Qualquer um pode enriquecer: modelos, jogadores de futebol, empresários, ganhadores de loterias, enfim, tudo depende da realização do que se deseja, do polarizante atingido. A meta de ganhar dinheiro, unifica a todos. Não se considera nenhuma especificidade, companhia ou área de trabalho responsável por isso, o que se considera sã...

A dor

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Geralmente todo corte abrupto é sem anestésico. Psicologicamente, a vivência da dor, da falta de alguém, por exemplo, ou do medo ou traição causada pelo próximo cria paroxismos dolorosos. A continuidade dessa vivência gera hábitos como maneira de suportar o vivenciado de deixar de sofrer ou de ter dores, mas é ficar na expectativa do inesperado que pode ser mais doloroso. Apanhar dia sim, dia não, seja do pai, da mãe, do marido ou do amante cria regra. Frequência que passa a modular pelos seus intervalos: as intermitências preparam os momentos para apanhar. Conviver com o que maltrata ou destrói é, muitas vezes, viciante. Na sociedade, as explicações econômicas e as atitudes dos exploradores passam a ser bem esperadas pois trazem pão, água e às vezes afagos. Come-se o pão que o diabo amassa para se chegar ao alívio da fome ou até para se chegar a Deus. Assim, o conformismo é muito oportuno, é pela submissão que se sobrevive e continua sendo alimentado e mantido. “ O homem é...

Exílio e esquecimento

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Ser exilado da própria terra, do lugar onde se nasceu e vive, seja por guerras, fome ou perseguição político-ideológica deixa marcas, resíduos não superados. A expectativa do não mais sofrer torturas nem abusos, como aconteceu aos presos políticos da ditadura brasileira de 1964; o ter se salvado dos campos de extermínio nazistas por fração de minuto na saída de um trem de prisioneiros, são vivências que marcam e dificultam flexibilidade e disponibilidade. Imaginar que poderia ser aprisionado, ver que milhões de outros foram exterminados ou torturados são referenciais que causam tristeza, desesperança, medo e mágoa. A construção de novas vidas supõe quase um apagar das anteriores. É uma transformação, às vezes uma violência que se exige. Tem que desaprender, esquecer, deslembrar, como dizia Fernando Pessoa. Parir-se de si mesmo e por si mesmo é um acontecimento que ultrapassa todas as identidades construídas e adquiridas. Mas a terra nova apesar de estranha é também familiar, p...

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