Descaracterizações
Tudo que se une ou se reúne pode se desunir ou dispersar. Dispersar, separar, é, em certo sentido, descaracterizar, principalmente quando se trata de objetos, fatos e situações. A preservação do contexto é notadamente o identificador, o organizador. Agrupamentos por semelhança podem ser quebrados e facilmente recuperados. Esse é o princípio estruturador das mais diversas situações: das meras coleções de objetos aos grupos que se manifestam em função de luta por princípios e propósitos.
Os pontos de união são como ímãs e polarizam, agrupam e unem. Dispersar é perder o ponto de união, o aglutinador.
Para nós humanos, a passagem do tempo causa dispersão, seja, por exemplo, pelo desaparecimento de pessoas, ultrapassagem de propósitos e motivações, por vencer as etapas das funções escolares, seja pelos colegas da universidade se afastarem ou os grupos de brincadeiras do bairro, do acampamento e colônia de férias, se distanciarem. Nas nossas vivências, além das compatibilidades e familiaridades, a memória é um aglutinador. O que aglutina, o memorizado, nem sempre é desejável. Lembrar, por exemplo, do passado em que existiu privação entristece e é desafiante. Relembrar todos os fatos que caracterizaram o período da separação conjugal ou a morte de entes queridos, geralmente unifica o desespero, a tristeza e o vazio. Nesses exemplos, aquilo que dispersa e desarticula é agradável, alivia tensão, desde que exerce antíteses ao nó que impede e imobiliza. Constantemente “ter que cortar o nó górdio” que asfixia é tarefa diária. Dispersar o congestionamento alivia, mas, como tudo, tem outro aspecto: apaga trilhas, muda semelhanças, quebra polarização. Isso pode ser libertador, assim como descaracterizador. Por meio de vícios, manias, fé e crença, frequentemente se deslocam os pontos de tensão dispersando o vazio, medo e desespero.
Aglutinar e dispersar são desestabilizadores ou estruturadores a depender dos contextos. Quando se fala de museus, objetos dispersos reunidos podem recuperar espaços, e, assim, continuar histórias e vivências esclarecedoras de épocas, assim como, por outro lado, a destruição das trilhas do vivenciado – álbuns de fotos, escritos, roupas e objetos – procura diluir existências vivenciadas como desagradáveis.
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