Poder, egoísmo, arma-na-mão e maldade




É sempre intrigante constatar que os poderosos, principalmente políticos, roubam, enganam e não se sentem mal! É quase - do ponto de vista deles - "dever de ofício" visto como solução e eficácia. Espanta também ver o assaltante, o marginal roubar, matar e não ter conflitos, não ter remorsos. Será que pertencem a outra espécie, outra forma de gente como imaginava Lombroso? Não. São sempre seres humanos. A diferença é que foram transformados em sobreviventes e, portanto, tudo é vivenciado em função dos desejos e necessidades extrapoladas e polarizadas para os deslocamentos da não aceitação. A não aceitação estabelece padrões e regras. É necessário ganhar um bilhão de dólares para se camuflar como humano, para se sentir gente e esquecer a bestialidade de seu processo. Outros precisam matar, eliminar 100 pessoas ou um número ilimitado, para sentirem-se capazes de ações e de prazer.

Transformar o outro, o diferente ou semelhante, em espelho, em respaldo ou desculpa de comportamento é alienador. Nesses casos, não se é motivado pelo outro, mas sim pelo outro coisificado, transformado em objeto conquistado, destruído ou neutralizado. Para essas pessoas, o poder e a violência afirmam o existir. O indivíduo vale pelo que rouba, destrói e mata. Outros seres humanos são, para eles, objetos que se destrói para não se tornarem ameaçadores, ou se compra para apoiar, para realizar desejos. O mundo, a sociedade, são transformados em supermercados, bordeis onde produtos e reciclados podem ser adquiridos e, mais, precisam realizar o sonho de estar sozinhos, isto é, serem admirados sem intromissões desfiguradoras e ameaçadoras. É o clássico "o mundo aos próprios pés".

Leis econômicas e societárias podem transformar indivíduos em seres que existem fundamentalmente para sobreviver, para ter o melhor. Seus familiares não questionam, ao contrário, incentivam o processo, ensinam que o que vale é o que se tem, o que aparece e que poder em dinheiro é a finalidade humana, que vida é isso e mesmo quando algum viés religioso é oferecido é sempre no sentido de aproveitar a oportunidade, pagar pelo melhor lugar na Igreja, estar junto e sob as benesses das autoridades religiosas. Tudo é utilizado neste processo de atingir, adquirir, ser o melhor, não importa quanto se destrua em volta, não interessa que as escadas de ascensão sejam representadas pelos cadáveres destruídos pela fome, pelo tiro ou pela prisão segregadora do que se considera diferente, denunciante e ameaçador.

O poder, a arma-na-mão, o egoísmo, a maldade decorrem de reduzir tudo ao processo de luta-fuga, de caça-coleta. Não é "primitivismo", é a negação da harmonia, é a negação do sujeito, é o sentir-se só, como maneira de não ser contestado, contrariado ou denunciado. Hoje em dia, as páginas políticas dos jornais tornaram-se páginas policiais, noticiários de TV dedicam metade do tempo à exposição da criminalidade violenta e indistinta do palácio ao casebre com seu caudal de justificativas desprezíveis: “rouba, mas faz”, “a política é assim”, “o poder corrompe”, “todos agem assim”, “não tive oportunidade na vida”, “lá na periferia a regra é essa”, “era eu ou ele” etc.

O egoísmo e a maldade não resultam de condições sociais e econômicas adversas, tanto quanto não são instinto humano, não são ausência de Deus, não são a presença do Demônio. Eles são a desumanização criada pelo autorreferenciamento, após impasses não enfrentados, limites não aceitos.


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