Falhas e frustrações



Viver em função da realização de objetivos gera atitudes determinadas, voltadas para vencer obstáculos que são considerados como o que atrapalha ou pode atrapalhar a realização de tais objetivos ou metas. Esse tipo de atitude privilegia o depois, o futuro, o que se quer construir e realizar.

Vivemos em universos relacionais, ou melhor, tudo que nos situa e configura é relacional. Implicações são nossos constituintes situacionais. Dedicar-se ao futuro, ao depois é abrir mão do presente, do agora e voar em direção aos objetivos, às soluções e desejos. Isso faz com que se perca o chão, a base, ultrapassando limites que são também referenciais.

Cada vez mais desvinculados de seus limites e impotências, mais o indivíduo crê se preparar para grandes vôos e realizações. Vulnerabilidades surgem, inconsistências são mantidas e assim é estabelecido o “nada pode me atrapalhar, nada me deterá no caminho do meu sonho, da minha realização, vencerei”. Essa atitude, aparentemente decidida e determinada, nada mais é que a polarização de frustrações e não aceitações que devem ser encobertas e superadas. Faz parte dos processos de não aceitação de si mesmo esconder tudo que se julga comprometedor de uma boa imagem diante dos padrões valorizados pela sociedade e particularizada nos próprios grupos de atuação, participação e expectativas. Esse processo transforma impotência - não aceitação de limites - em onipotência, exercida pela busca de esferas de poder que possam esmagar, destruir tudo que questiona e atrapalha a corrida para a vitória.

Quanto mais determinado, mais frustrado, mais enfraquecido. Esse aparente paradoxo é compreendido se considerarmos a estrutura do ser humano enquanto ser no mundo, vivenciando o que está em sua volta - ou seja, o seu presente, os outros - e não o que ele deseja conseguir ou realizar, utilizando o que o circunda como escada para o futuro e os outros como matéria-prima para ajudar, ou como resíduos a descartar, que podem emperrar a máquina fabricadora de sucesso ou de realização.



Comentários

  1. Olá Vera,
    Gostei muito do texto, didático e esclarecedor.
    Um abraço,
    Vanja

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