Pele e alma - Selvageria e civilização







Somos os animais mais desenvolvidos na escala biológica e nosso objetivo maior ainda é sobreviver. O ciclo evolutivo nos deu adrenalina, córtex cerebral, músculos e inúmeras vantagens orgânicas para isso, tanto quanto para a realização da função de alerta.

Acontece que somos mais que isso à medida que percebemos, refletimos e constatamos todo nosso processo, criando, assim, transcendência, ou seja, criando condição de ir além, de deter os movimentos desse ciclo e limites orgânicos. Por isso vencemos o mar construindo navios; vencemos o ar construindo aviões; vencemos o espaço e tempo escrevendo, simbolizando, condensando e ampliando. Tudo isso é ir além do próprio organismo, da própria sobrevivência, ou, tudo isso pode se voltar para o organismo ou para a sobrevivência.

Quanto mais acumulamos enquanto máquina sobrevivente, mais salvamos nossa pele e perdemos nossa alma, nossa humanidade, chegando às vezes a não exercê-la, a sequer conhecê-la.

Frequentemente nos encontramos em encruzilhadas, em situações nas quais salvamos nossa pele ou salvamos nossa alma. São várias as situações cotidianas nas quais nos omitimos ou participamos em função de conseguir ou manter vantagens: fingimos não ver o assédio, ou denunciamos? Mantemos conivência com o suborno, ou o rejeitamos? Constatamos a traição, ou fazemos de conta que nada aconteceu? De tanto isso ocorrer são automatizados avisos, sirenes para salvar a pele, o que cada vez mais acarreta diminuição de humanidade. Viver em função da sobrevivência, do ganho, da meta, do futuro é uma maneira de acumular frustração. Esse não se deter no que ocorre esvazia as possibilidades de transformação, esvazia os questionamentos e neutraliza antíteses quebrando a dialética, o movimento que nos permitiria ir além dos próprios limites dos círculos sobreviventes. Esse esvaziamento transforma nossa possibilidade de transcender em um agarrar de crenças, de deuses que vão nos resgatar, nos ajudar no futuro, mesmo que ocorra no post-mortem. A vida para depois é um estado de selvageria que se opõe a qualquer polimento humanitário.

Ir além do círculo que nos limita, situa e define é ultrapassar medidas, regras e paisagens. Essas ultrapassagens sempre possibilitam descobertas. O novo é o inesperado, a antítese que amplia e transcende referenciais conhecidos. Quebrar a rotina e criar novos ritmos estabelece novos compassos. É transcender, é civilizar, é descobrir novas dimensões para realizar humanidade.

Novos parâmetros e descobertas às vezes arranham peles e modificam aparências, mas ampliam horizontes pelos quais liberdade, clareza e evidências dão novo sentido ao sobreviver. Não mais se pensa em manter e cuidar e sim em participar e integrar. Harmonia surge em lugar de repetição. Não há o que salvar, pois não há o que perder. A vida é continuidade e isso é instantâneo quando não represado pelo medo e pelas conveniências da sobrevivência.

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