Paciência




Paciência é a grande virtude, segundo os religiosos e os mais diversos mestres.

Paciência é também a atitude régia para esconder desejos não realizados, medos e vontades inconfessáveis. Ter paciência é uma maneira de não abrir mão dos propósitos ao constatar limites e impossibilidades. Esse regatear, negociar com a realidade, cria medrosos, covardes e ambiciosos. A ideia de que algum dia tudo se realizará dissimula vacilação e insegurança.

Paciência é submissão e passividade diante de contradições. É a criação de mais um passo, mais uma etapa antes de concluir sobre as próprias incapacidades e frustrações. Esperar é delegar, é começar a corroer autonomia e decisão. Instalar-se no “quem espera sempre alcança” é lançar mão de paciência, gerando expectativa, criando e mantendo ansiedades.

Renunciar aos desejos, ao constatar a impossibilidade de realização dos mesmos, se constitui em um caminho mais válido para instaurar autonomia. Paciência como ideia fixa é responsável pela parcialização e consequente autoreferrenciamento no estar no mundo. O posicionamento expectante é alienante ao transformar o indivíduo em um ponto de encontro, ponto de contradição de inúmeras variáveis sequer percebidas, pois ao juntá-las diminui suas consequentes vivências. Tudo é feito a partir da ideia fixa do que se espera, do que se submete, do que se aspira pacientemente.

A continuidade dos processos - suas inerentes contradições - exige mudança, impede posicionamentos que, quando ocorrem, fragmentam os processos, aumentando o autorreferenciamento.

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