Abulia e medo



Não querer, não ter vontade de fazer nada é abulia. Essa neutralização das motivações transforma o indivíduo em máquina captadora de demandas. Reagir e responder da melhor maneira é a forma que ele encontra para se locomover em sua pequena área de segurança. Essa locomoção é um posicionamento. Só pensa e faz o que não prejudica e ainda o que melhora. Acontece que mesmo mecanizado o ser humano é um ser vivo, ele sofre, decide e estabelece processos.

Quanto mais posicionado em seus medos e avaliações, mais enrijecido, menos dinamizado, movimentando-se apenas pelo sim e pelo não, pelo que satisfaz e pelo que frustra. Nesse compasso pendular, sua oscilação se faz ao fugir da dor, ao buscar o prazer e assim sua construção de trajetória, seu plano de ação é retraimento, anulação. Desse modo se consegue transformar vontade, motivação em abulia - falta de vontade - criada pela filtragem das contabilizações e medos.

Tudo que é pesado, medido e contado, recebe valores agregados que podem transformá-lo em mercadoria, em objetos de barganha, em moeda de transação. Esse escambo, essas trocas, utilizam as reduzidas possibilidades para suprir necessidades infinitas. É o viver por e para, viver que esvazia o próprio viver.

Viver é estar no mundo com o outro. Esse definido e definitivo cria nebulosas que impedem ou aceleram locomoção, tanto quanto infinitas planícies, extensos labirintos. Caminhar, é identificar e reconhecer paisagens, estruturas, contextos, que geram vontade, motivam. Ficar parado, posicionado, verificando o que se recebe, o que é agregador ou prejudicial, gera expectativas, vontades futuras, ou seja: abulia e medo.

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