Práticas repetidas

 


 

Usualmente a repetição, a prática frequente é o que chamamos hábito ou costume. Afirma-se que essas repetições atingem níveis de inconsciência, tanto quanto de automatismos, pois seus mecanismos são explicados por condicionamentos ou manutenções inconscientes.

Acontece que o hábito não é repetição ou inconsciência, ele é a resposta ao estímulo, é o automatismo do sim e do não, é a persistência do adequado, do aprendido. Nesse sentido, hábito como repetição mecânica, como resposta àquela pergunta implícita, funciona como o preenchimento de intervalos. Assim como na solidão se desmascara, grita e nada esconde, no hábito se repete uma resposta antiga. Não existem mais estímulos, entretanto restam respostas. É um dinamizador que segue a martelar no vazio. É o automatismo que nada configura, embora muito esclareça.

A manutenção de costumes, geralmente entendida como hábito, nada explica, embora esclareça comportamentos. Apenas ocupa um lugar no espaço e como o preenchimento do vazio significa, o hábito configura participação. Esse processo de alienação, socialmente sancionado, explica comportamentos e estabelece critérios à partir dos quais a realidade é configurada. Lembro de uma máxima de almanaque que dizia: “as cadeias do hábito são tão fortes que não as podemos quebrar, ou tão sutis que nem as sentimos”. Socializar, em certo sentido, é estabelecer hábitos e isso demonstra porque os comportamentos sociais mantidos de uma geração para outra são mal-entendidos ou causam espanto.

Estabelecer hábitos é estabelecer vínculos alienantes. Defrontar-se com a vida, com os acontecimentos requer questionamentos sob pena de afirmar condições alheias às novas realidades, condições apenas ditadas pelo hábito. Ele é a referência que deu certo e que é consagrada tanto na esfera individual, quanto na pública. Mesmo quando considerados maus hábitos, são sancionados, pois conseguem salvar do vazio, do medo e da impotência.

As coisas devem ser realizadas, devem se repetir pela transformação de referenciais e isso é o que vai lhes conferir um aspecto novo. Repetir para recuperação dos dados é alienante, embora faça as máquinas rodarem. Práticas repetidas podem apontar para mudanças à medida que se reestruturam em seus configuradores, e assim se afirmam, se atualizam permitindo dinâmica ao ir além do estabelecido. Nesse sentido manter hábitos é estabelecer o processo e reconfigurá-los, bem diferente do processo de estocá-los para usar como chaves mestras decisórias. A verdade de ontem é a mentira de hoje quando condicionada em molduras que as desvitalizam.

Vida é mudança, que se expressa pela transformação de hábitos, regras e crenças. A única manutenção possível é a capacidade de mudar, de estar diante do novo que tudo transforma. Na vivência, na percepção do dia a dia são estabelecidos amplos diálogos e essa criação de linguagem estabelece nexos sinalizadores de atitudes persistentes.

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