Pretensa capacidade como deslocamento da impotência

 

 

Sentir-se incapaz e sem condições de agir, de modificar situações que estão sendo desagradáveis cria inconvenientes questionamentos ao estabelecido, revoltas e muitas vezes propósitos de boas ações. A não aceitação da incapacidade é gerada pela culpa, maneira de deslocar a impotência diante de acontecimentos, camuflagem necessária para persecução de objetivos, comprovando assim a evidência conceitual: a onipotência é sempre um deslocamento da impotência.

Não admitir a própria incapacidade, não admitir e escolher a si mesmo como objetivo fundamental leva à criação de camuflagens, desde que o indivíduo quer se manter em posição, por exemplo, como responsável defensor da família e consequente com seus ditames de "chefe de família". Para essas pessoas, abrir mão do outro é uma maneira de se afirmar, de subir na escada das realizações. O lema é: nada me atrapalha. Acontece que, seguindo nosso exemplo da família, é a própria mãe, o próprio pai, o irmão que precisam de ajuda e dedicação. Surge a contradição que solapa e cria conflitos: se recusa a participar do que pensa trazer prejuízo, procura se esconder em faz de contas, em boas intenções em justificativas de bons propósitos. A mentira, o faz de conta cria revolta, inveja e medo, e assim é estruturada a inadequação, o desespero. Quanto mais tenta ajudar, mais se prejudica, adquirindo condição para desistir de ser o salvador da família, passando a ser a vítima, o incompreendido, o que só queria ajudar.

Esconder conveniências e lutar para afirmar dedicação e questionamentos são os enganosos ardis utilizados para justificar as não aceitações, o colocar as próprias conveniências acima de tudo. Quanto mais se age assim, mais aumenta a culpa responsável pela omissão diante da própria problemática. Vida é dinâmica, espontaneidade que quando engavetada em regras do passado se degrada, se esclerosa, se mecaniza e robotiza em função da busca e das dúvidas do indivíduo.

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