Percepção do Outro - o outro percebido como plateia IX

 




A expectativa de resultados, o constante evitar de fracassos e críticas transformam o cotidiano em uma grande maratona. Juízes, comentadores e adversários estão sempre perto. Tudo fazer para desempenhar bem os papéis é a regra de ouro para o comportamento de quem depende de aplausos, de aceitação, e de evitar críticas ou rejeições. Essa atitude transforma a vida em constante busca de ser aplaudido, instalando também variações de humor e de motivações. O outro é o índice, é o que assinala se está bem ou mal. Quando aceito, elogiado, tudo caminha bem, caso contrário a vida encalha, arrastando consigo o torvelinho de fracassos, falhas e medo. Vive para  cuidar da aparência, e estar sempre bem vestido por exemplo, é a chave que abre mundos e caminhos. É também uma maneira de estar virando produto no grande mercado mundial. Assim as peças usadas significam, os detalhes revelam muito, a vida pode transcorrer sem problemas quando se acerta com a boa fantasia, a vestimenta que talvez o inclua no considerado mundo bom, no mundo rico. A vida, nesse contexto, é o espetáculo, é o desempenho diário, que quando bem assistido, "propinado", elogiado, resolve problemáticas.

As plateias ampliam-se nas plataformas digitais. Cliques, agora, enfaticamente expressam e conduzem à fama e também ao dinheiro. A monetarização do afeto, os likes endereçados são veredas possíveis para o sucesso. É o foguete que foge da terra, atingindo desejados e admirados mundos ilusórios. Cada vez mais reduzido aos cliques pelos risos ou choros, o outro é desvitalizado. Nesse contexto de despersonalização, qualquer robô, qualquer manipulação de inteligência artificial (IA) supre e substitui o outro. Precisar do outro, depender de sua aprovação, ou depender de sua reprovação, é um dos caminhos mais rápidos para neutralizá-lo, para negar sua existência, substituindo-o por qualquer robô, qualquer imitação de vida, de afeto e realidade.

Na paradoxal necessidade de apoio, de aplauso, de evitar crítica, se encontra um dos maiores processos de esvaziamento do outro. O outro fundamental e necessário é transformado em algo descartável, substituível, pois sua função é preestabelecida, reduzida a gritos, berros, uivos, aplausos. Estar na plateia, no palco e lutar por aplausos é transformar-se em ator, atriz, palhaço de estraçalhadas ilusões, de constantes juras, de segurar o que escorrega das mãos.

Reduzir a vivência a aprovações, evitando críticas e ofensas, é buscar sempre o bom resultado, o acerto, e assim, perdendo autonomia, transformar a própria vida em histórias, narrativas que se esgotam em si mesmas, seladas com aplausos ou vaias. A desvitalização do existir ocorre quando o outro é coisificado e nesse contexto só restam sinalizações de bom, de ruim, de certo, de errado, totalmente efêmeras e contingentes quanto a seus estruturantes.

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