Superação e neurose - não aceitação do presente

 



O desejo de superar dificuldades, assim como de superar condições consideradas ruins para o desenvolvimento da própria vida, engendra metas. Tudo que é estabelecido e frutificado nos desejos decorre de não aceitações. Querer superar o que falta, conseguir o que não teve, preencher carências é o propósito, o motivo que lança o indivíduo para o futuro, estabelecendo, desse modo, o conquistador vitorioso ou o ressentido fracassado. Nesse contexto, ir além do próprio limite negando-o constrói as motivações para superação dos problemas e dificuldades.

O que limita deve ser vencido, ultrapassado, integrado, absorvido, absolvido no próprio processo do estar no mundo. É como apreender as coisas, aprender a falar, aprender a ler, adquirir técnicas que promovam mudanças da realidade, que determinam aptidão e escolhas profissionais. É fruto do embate, do que está determinado, do que limita. Quando os processos vitais e relacionais são transformados em etapas a serem vencidas, a luta pelo poder e aceitação se instalam. Surgem classificações valorativas e o bom, o ruim, o puro, o impuro, o capaz, o incapaz são configurados a partir dos desejos, metas e pódios a atingir, e desse modo o indivíduo é movido pela ansiedade, medo, ganância. Nesse contexto, tudo que atravessa seu desejo de superação e mudança tem que ser destruído, e superar é o desejo, o objetivo que constrói seu dia a dia. Todas as proposições, motivações são dessa maneira estabelecidas.

Ao perceber dificuldades, incapacidades e indisponibilidades o indivíduo percebe os limites que as configuram. Quando a realidade e as contradições são aceitas e percebidas, essa vivência lhe dá condições de mudar e caminhar por onde pode estruturar autonomia. É um processo bem diferente de burlar limites e criar dinâmicas que o orientam e ajudam a chegar onde deseja. A aceitação do processo, a vivência do presente é o que vai permitir estruturar autonomia. Quanto mais se nega o que existe - o presente - e se busca o sonhado, o desejado para superar dificuldades, mais o indivíduo se submete, no mínimo, aos próprios desejos, acomodando-se às depressões resultantes da avaliação das falhas, dos resultados diferentes dos almejados.

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