A coisa mais retrógrada...

 



A coisa mais retrógrada em um dado momento pode ser aquela pela qual se luta. Para entender essa afirmação é necessário perceber as defasagens do tempo. O que passou não mais existe e o que ainda não aconteceu, tampouco. Só existe o presente, no caso só existe a luta. Entretanto, muitas vezes os objetivos que fundamentam a luta não existem, não estão presentes. Lutar pelo que não existe é quimera, sonho, ilusão. No âmbito afetivo relacional querer recuperar afetos perdidos com considerações desgastadas é ilusão, é um faz de contas negador dos desgastes e erros por exemplo, assim como no âmbito político social querer levar os menos privilegiados a recuperar direitos pode ser apenas desejo de realização do próprio sonho.

Vida é movimento, é processo. Novos contextos, novas redes, novas configurações relacionais. O direito de ontem, não é mais o de hoje, nem será o de amanhã. A luta, muito próxima do desejo, se confunde com ambição, perseverança, ganância e nesse sentido impermeabiliza o indivíduo para vivenciar o presente. Viver não é lutar. Viver é viver. Referenciar-se sempre em por quê ou em para quê, empareda. Objetivos, às vezes são transformados em limites aniquiladores. Inúmeras histórias individuais estão a nos mostrar como o objetivo falhado, não atingido leva à autodestruição pelas drogas lícitas ou ilícitas, por certos relacionamentos amorosos ou amizades, por associações religiosas, por associações políticas, e mesmo, em alguns casos, chega-se ao suicídio.

A luta para ser reconhecido, considerado e amado é demonstrativa desse processo retrógrado. Em situação de pobreza, nas condições difíceis de humanização quando se luta por sobrevivência se planta ordem, objetivos, propósitos, que muitas vezes estruturam ganância, certezas inabaláveis de direitos, e prejuízos responsáveis por edificação de violências reparadoras, ou mesmo necessárias. Vida e morte se confundem, bem e mal assumem novas aparências e movimentações. Direito não é sinônimo de legitimidade. Nas lutas deslocadas do presente perde-se perspectiva desde que ela é perseguida no "endireitamento do que foi errado". Esse voltar para trás é sempre atordoante, impede perceber a configuração do que ocorre.

A luta só significa se for objetivada enquanto reação ao que infelicita e destrói. Jamais pode se referir a um antes, a um acerto de contas, jamais vingança ou revanche, nem mesmo na recuperação do perdido, pois assim ela estaciona e se mantém na imobilidade do conseguido, na recuperação. Triste o que acontece em seguida: a manutenção do conseguido (muro de Berlim, muro da Palestina, muralhas condominiais são exemplos). Inúmeras lutas são pelo que aconteceu ou pelo que precisa acontecer: vingança e ambição.

Importante entender que a luta deve ser sempre constatação, enfrentamento, e essas são situações presentes que a ensejam. Quando congelados seus motivantes, a luta se torna retrógrada, vingativa e despropositada. Nesse sentido, lutar pode ser uma forma de frear processos, antecipando narrativas demolidoras, retrógradas e desesperadas.

As religiões, na busca do céu, do além, sempre lutam, sempre procuram adeptos, soldados crentes para destruir infiéis. O mesmo fazem organizações político partidárias, e então, nesses contextos, ser adepto é virar soldadinho de chumbo, peça para manobra, para bala de canhão. No âmbito familiar, na esfera emocional, lutar para recuperar o amor de quem o abandonou, por exemplo, é também interessante amostra de vitimização, de conduta retrógrada e desesperada.

 

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