Irrecuperável

 


 

Ao constatar a falta de possibilidade em recuperar o que foi estragado, o que é desejado ou o que foi perdido surge a vivência de irremediabilidade. Nada mais pode ser feito e o que se fez é o que causou a impossibilidade. Contradição e antagonismo de tanto atritarem criaram fossos, buracos e vazios. São dois pedaços, não há comunicação, salvo as de memória e desejo. Não suportando essa vivência e não questionando seus referenciais de contradição, as divisões proliferam. De um lado a pessoa boa que tudo possibilita, de outro, a mesma pessoa que é a que tudo dificulta e atrapalha. Não se constatando as divisões arbitrariamente realizadas, não se enxerga o abismo relacional configurado. Melanie Klein já falava no desespero e na culpa da criança que entra em crise ao descobrir que o "seio bom e o seio mau" fazem parte da mesma pessoa: da mãe. Chamo atenção para esse exemplo da psicanálise kleiniana apenas para corporificar, exemplificar a questão. Na realidade a culpa não decorre da divisão e posterior apreensão da junção; a culpa é justo o deslocamento da impotência, ou seja, da impossibilidade de conviver, de aceitar o que está diante de si. Nesse sentido, a culpa não é em relação à mãe ora boa quando alimenta, ora má quando seca seu seio não tendo leite, a culpa é a impossibilidade de se deter, de estar presente, de aceitar limites. A impotência de enfrentar o que ocorre gera omissão - medo - e também culpa, ou seja, esquemas de aproximação e afastamento do que ocorre. A impotência cria instrumentos, artefatos e a culpa é um deles. É o afã de configurar onde se errou, onde está o erro, no que se falhou. Mapas, lunetas, todo um instrumental é invocado para pinçar detalhes, para esclarecer vivências enfim, mas sem configurar a impotência deslocada e consequentemente não aceita. Não aceitar a impotência, o irremediável, pode ser uma maneira de se negar como ser no mundo, como possibilidade de relacionamento.

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