Entraves e bloqueios

 


 

À parte as pessoas com lesões cerebrais ou nervosas identificadas, a dificuldade de expressão - principalmente de diálogo - na fala, na exposição de pensamentos é, frequentemente, entendida como "déficit cognitivo" ou "bloqueio emocional". Essa particularização, situando os problemas de expressão e de fala na esfera cognitiva ou emocional, é precária pois decorre de visões elementaristas dos fatos psicológicos. Não são as funções cognitivas - de conhecimento - nem são as emoções os iniciantes ou deflagradores de problemas. Não existem essas particularizações. O que existe é um indivíduo no seu mundo, que reduzido às funções de obedecer, por exemplo, de não criar problemas e se controlar desenvolve bloqueios. Assim ele é educado, assim cresce e se percebe só, sem o outro que o encontre, que o situe. São referenciais, são regras, deveres que, quando obedecidos não geram conflito, mas que ao contrário, quando não obedecidos geram reclamações. Seguir a linha, não sair do ponto, não se arriscar, não se expressar é a solução. Quanto mais lacônico, monossilábico e silencioso, menos dificuldades, menos conflitos e problemas. Não sabe o que dizer nem o que não dizer, só sabe que quanto menos se expressar, menos conflitos, menos gritos e reclamações surgem.

Esse processo de compactação reduz o indivíduo às pontualizações circunstanciais, criando, consequentemente, grandes dificuldades na família e com os colegas. Constatar a configuração do entrave faz abrir caminhos na medida em que lhe permite outra percepção, como por exemplo a descoberta do outro que não cobra, não reclama, não ensina, não pune. Esses contextos não limitadores possibilitam o início de expressão ainda que claudicante e difícil já que balizada por todas as não aceitações estruturantes de seus processos relacionais. É mágico perceber as mudanças. Pigmaleão, na literatura, muito bem as exemplificou. Poder experimentar o mundo, o relacionamento com o outro e consigo mesmo, sem trava, sem nada pelo meio, é libertador. É o início de descobertas, anseios e dificuldades, mas é vida, é o falar com a própria voz, é autonomia. Principalmente crianças, mulheres e subalternos dominados diariamente ilustram bem esses comentários, pois de uma maneira geral, homens adultos e autônomos descobrem onde e quando a expressão é viável e possível, mesmo que agressivos, inseguros e caóticos.

O grande problema desse comportamento problemático, dessa dificuldade de expressão é que ela é nutrida pelas não aceitações e incapacidades. É comum ouvirmos em consultório: "até falar, dá medo".  Para essas pessoas, não dizer o que pensam é uma maneira de esconder frustrações e não se arriscar a julgamentos.

Quando não são configurados os estruturantes da dificuldade de expressão, se é sempre tentado a falar de autismo, mutismo traumático etc. Mas, na verdade é o medo de ser recriminado o estruturante de omissão, que apaga trajetórias e destrona possibilidades, e isso é claramente imobilizador e desumanizador.   

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