Andar devagarinho


 

 

Sentir muito medo, sentir-se sozinho, não ver perspectivas pois tudo é escuro é a preocupação constante na vida de certos indivíduos. Medo é omissão e isso não é um prévio, um “instinto”, uma “emoção inconsciente”. Medo é o que se sente quando nada se percebe, a não ser o nada saber, nada estar claro. É caminhar com muita dificuldade, sem apoio, sem muletas, sem lanternas, sem guias. Essa omissão, esse ser à margem do mundo é frequente nos considerados indivíduos autistas, como também é explícito na insegurança cheia de metas e propósitos dos indivíduos que não se aceitam e querem ser aceitos. Não sabem como andar, para onde ir, o que fazer, e caem na omissão. É melhor ficar parado, abrir a boca para o mundo e esperar ajuda, apoio, comida, migalhas. É a imobilidade do que não sabe o que fazer, assim como a do que tudo espera. Não cair, não tropeçar, não ter que gritar, que uivar é o que importa. Quanto mais regras, mais expectativas, mais desencontros no vácuo. Perdidos no mundo, sozinhos, o máximo que se consegue é não andar, ou ainda, andar devagarinho. Quadros depressivos, desajustes, podem ser configurados pelos processos de omissão. Não houve o encontro, a aceitação do outro pelo que se é, e sim pela possibilidade, a necessidade do que pode ser, então, surge a marionete conduzida pelos fios dos desejos dos que as manipulam, que conseguem realizar funções, atividades, responder a comandos, mas se os mesmos desaparecem, caem, e no máximo, pelos bons ventos, andam devagarinho. Os grupos organizados em função de propósitos políticos, religiosos, empresariais, familiares, também se encaixam nesse caminhar condicionado, sem autonomia, consequentemente “devagarinho” em relação às próprias motivações e interesses, quando, de uma maneira geral, foram formatados nas circunstâncias.

Comentários

  1. Pensei que se a pessoa que se encontrar, enfrenta seus medos e inseguranças em uma psicoterapia, aceita que não se aceita, esse também me parece ser um processo gradual. Não acontece em geral com rapidez.

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    1. Augusto, esse seu comentário implica em reduções quantitativas. Processos não são graduais, para efeito de explicação, quando reduzidos a isso, não abrangem nem globalizam fenômenos. Estabelecer graus para o processo é admitir o todo como soma de partes. Não é ir conseguindo, conseguindo aos poucos e entendendo, que ocorre a mudança. A mudança é apreensão global das contradições que mantêm a continuidade de estar no mundo com os outros. Na continuidade você não pode estabelecer graus, e quando você estabelece elementos, seja época, tempo, você elementariza. Surgem assim, dicotomias, metas, princípio, meio e fim. Isso não é o processo, embora o processo possa ser situado através desses referenciais que não o esgotam, nem o explicam.

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