A primeira coisa é o um ou o dois?

      


A abrangência da pergunta sobre se a primeira coisa é o um ou o dois, a questão do um ou do dois como fundamento lógico das questões filosóficas, científicas, sociais e individuais me fez lembrar a clássica dúvida resolvida por Husserl (Fenomenologia) quando lhe perguntaram quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Ele respondeu: tragam-me o ovo e a galinha que responderei.

 

A questão do um ou do dois, de saber qual a primeira coisa requer considerações conceituais. Imaginar origens, princípios ou causas ancora no reino do determinismo. É nesse universo conceitual que praticamente tudo que ocorre é explicado, e, assim, se nega a interação de fenômenos ou de acontecimentos.

 

Essa pressuposição de causas tem como base a noção de que tudo inicia em um. A inquirição sobre início ou origem cai em uma investigação de causalidade. Explicar a criação do homem ou do mundo, por exemplo, partindo do princípio divino, extrínseco ao existente, enfoca a criação como fruto de um criador, transforma tudo em resultado de outros universos, realidades ou situações. A explicação de que Eva surgiu de uma costela de Adão é um exemplo do um causando o dois, criando o outro. Eva surgiu de uma costela de Adão? Um causa dois? Um causa o outro? O duplo? Ou Eva e Adão – dois - criariam o um, a descendência? Muitas questões são enfocadas e discutidas a partir dessas colocações dualistas baseadas em causa e efeito, bem e mal, fator humano e fator divino. O determinismo é fundamental para atingir resultados, melhor dizendo, nessa visão o um é o responsável pela criação do dois. Esse ponto cria dissonância: dois são dois um? Ou seja, somar é manter unidades? O um se repete infinitamente? Ser reproduzido por adição, diminuição, multiplicação, divisão é ser eternamente um?

 

Quando escrevi Terra e Ouro são iguais, percepção em Psicoterapia Gestaltista dediquei todo um capítulo a esse problema tão importante para o pensamento filosófico, assim como para o psicológico. Entender o ser humano, suas divisões, suas problemáticas expressas em sobrevivência e processos adaptativos e desadaptativos é fundamental na prática psicoterápica. Afirmo que é pelo fato da divisão expressar a unidade que se torna possível a realização dos processos de mudança de comportamentos. Quando um ser humano está dividido, fragmentado existe sempre a possibilidade de unificação.

 

O duplo, o dois é uma expressão do um. Trata-se de novas contextualizações do um, em outras palavras, trata-se de processo de interação que não pode ser reduzido a suas possibilidades de quantificação.

 

Contar, numerar é apreender os aspectos quantificáveis dos fenômenos. O litro de água pode ser a medida da água do rio ou da torneira. Medir nada explica, apenas registra um ou dois números.

 

A questão do um e do dois, ou da causalidade, fundamenta abordagens que expressam inícios arbitrários ou interseções configuradas. Insisto que nada resulta e nada é causa. Um, dois, três são números, quantificação de processos. É necessário acabar com a ideia de origem, início e causa.

 

Em meu livro Tudo é relacional, causalidade nada explica, afirmei: “O homem não resulta porque ele não decorre de uma causa. Nem o homem, nem nada. Nada resulta e nada é causa. Existem interpenetrações, interseções. Não procuramos indicações de que isso começa aqui e termina ali. Apesar de sempre podermos dizer que começa aqui e termina ali, mas quando fazemos isso estamos trabalhando com um ponto, um elemento, pode ser, por exemplo, um ser humano, pode ser uma ditadura, pode ser o massacre dos palestinos ou os campos de concentração, mas são pontos, e suas interseções é que vão explica-los. O importante é entender que não há origem, que as coisas não resultam, que não são causadas, que o mundo não é formado de elementos.”

 

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