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Perdão

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No cristianismo, perdoar é praticamente uma regra definidora do bom cristão, que tanto pede perdão constantemente (confissão e expiação dos pecados), quanto, mirando-se no Cristo, busca perdoar seus agressores sistematicamente. Saindo do referencial cristão e popular, perdoar, sob o ponto de vista psicológico é quase sinônimo de generosidade, neste sentido é o oposto de mesquinharia. Mesquinho é o avaliador, aquele que tudo conta, considera, aproveita e não esquece. Limitada pelos referenciais do que beneficia, do que atrapalha, do que dá segurança ou pressiona, a vida é diminuida, amesquinhada; nenhum crescimento, desenvolvimento cultural ou expansão podem acontecer. Restringindo-se a estes parâmetros, tudo é avaliado e assim se vive. Neste contexto de avaliação, ou se perdoa facilmente, quando perdoar não atrapalha, não prejudica ou se contabiliza a situação e se torna implacável, jamais perdoando. O foco não é o outro, não é o perdão, mas sim evitar o que atrapalha. Nesta ...

Inutilidade

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Psicologicamente a vivência de ser rejeitado e assim se sentir, equivale a constatação de inutilidade. Incapaz de preencher requisitos do que é considerado bom, válido e útil, o indivíduo é expelido das relações por ele configuradas. Diversas traduções surgem para considerar e explicar esta vivência, desde às do seio mau (Melanie Klein) até às de "arianização". A atitude de rejeitar está estruturada, geralmente, em contextos e estruturas socio-econômicas: são os preconceitos, as restrições, os bodes expiatórios, necessários à manutenção dos sistemas. Perceber-se rejeitado atinge outras dimensões desde que surge um mediador, um filtro responsável por esta categorização. Não se aceitando, o indivíduo fica referenciado nessas vivências: é o autorreferenciamento. Ele busca ser aceito e geralmente se sente rejeitado, nada preenche suas demandas de aceitação. Criando metas e padrões onde tudo dará certo, onde ele será útil e bom, belo e aceitável, ele continuamente avalia...

Covardia

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Covardia é o que resulta da avaliação e omissão em uma estrutura autorreferenciada. Quando se está travado pelas conveniências, decisão e tomada de posição não existem. Medo e covardia são, usualmente, considerados sinônimos. É como se a omissão (o medo) fosse ampliada pela conveniência. Avaliar lucros e perdas faz com que o indivíduo se retire da situação vivenciada. Muitas vezes esta retirada só é conseguida através de mentiras, falsidades, hipocrisia. Não querer enfrentar uma situação faz com que sejam utilizados vários expedientes, clichês sociais como "não se meter na vida alheia", "evitar denunciar" ou em determinadas situações  "é melhor denunciar", "ninguém sabe o que vai advir" etc. Delatores, tanto quanto discretos que jamais interferem, são alguns dos covardes escondidos sob o politicamente correto ou o comunitariamente necessário. Quanto maior o autorreferenciamento, quanto mais estiver a vida focada na realização de n...

Transposição de obstáculos

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Superar é transpor obstáculos tanto quanto ultrapassar referenciais identificatórios. Ao transpor obstáculos se transforma limites, se realiza desejos e se recontextualiza. Esta recontextualização é responsável pela neutralização de vivências e situações de não aceitação, assim como também pode ser incentivadora de novas metas geradas pelos processos da não aceitação. Estímulos e incentivos estruturados com o objetivo de apagar referenciais considerados empobrecedores e empobrecidos, seja no aspecto econômico, social ou pessoal, leva a constantes desafios motivadores do desejo de superar. Quando a transformação do limite é realizada no contexto do autorreferenciamento, surge muita ambição, certezas e inseguranças e não há solidariedade. A participação é contingenciada pela competição; ser o melhor é então uma imposição, tanto quanto continuar mantendo o que conseguiu, mesmo que isto implique em destruir o que ameaça. Quando o outro é o ameaçador, ele é transformado - por conveniê...

Homogeneização de campo

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Nas dinâmicas relacionais, nos processos perceptivos, inúmeros conflitos, diversas posições, significados contraditórios quando não percebidos em suas especificidades, podem ser traduzidos como dificuldades e transtornos psicológicos, tumultos sociais etc criando assim, homogeneizações parcializantes e responsáveis por tipificações de normalidade ou anormalidade. O desenrolar de situações, suas dinâmicas, podem possibilitar percepções que apreendem o que está acontecendo ou podem estabelecer homogeneizações onde toda diferenciação é resumida em significados iguais. Isto acontece por exemplo, quando por causa do pai alcoolista, todos os transtornos familiares são por isto explicados; esta homogeneização impede diferenciações das variáveis envolvidas nas constelações familiares. Da mesma forma quando episódios de violência ou de manipulação em movimentos de massa são destacados para justificaticar ações repressoras ou respostas pontualizadas, os questionamentos centrais são dispers...

Processo dialético - Mudança e acomodação

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Todo processo - dos psicológicos aos sociais - é dialético. Isto significa afirmar que todo processo é movimentação permanente, intrínseca ao próprio processo (tensão entre situações diversas e opostas, teses e antíteses configuradoras de sínteses). É oportuno, mais fácil, explicar o que acontece como se tivesse sempre uma causa interveniente, situações iniciadoras; mas essa abordagem resulta de desconhecer ou de negar o processo dialético, negar o surgimento de impasses que são decorrentes das forças em jogo. A mudança não pode ser explicada buscando causas, origens determinantes da mesma; ao fazer isto instalam-se reducionismos, criam-se culpados e responsáveis alheios ao processo que está se desenrolando, embora pertencentes e contextualizados em outros processos. Estas distorções, decorrentes da não globalização dos acontecimentos, ocorrem tanto no âmbito político-social (partidos políticos, agremiações etc) quanto no âmbito privado (crises individuais e familiares etc), cons...

Povo na rua

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As crenças acomodam, mas também destroem quem nelas se posiciona.  A antítese ao marasmo, cooptação e arrendamento é o novo que acontece agora nas avenidas, praças e ruas da maior parte do Brasil. Emerge a insatisfação diante das históricas mentiras apregoadas, manifestações com o povo nas ruas acontecem imprensadas entre festas, comemorações, gastos faraônicos das copas futebolísticas e opacas e ameaçadoras realidades caracterizadas por: transporte público caro e ruim, impostos régios, cidades insalubres e sem segurança, educação deficiente, sistema de saúde pública precário com imensos problemas logísticos e carência de profissionais, corrupção política, impunidade e justiça lenta etc. Durante muito tempo a sociedade brasileira vem sendo sedada sob várias formas, desde o "milagre brasileiro" até a classificação de quinta economia mundial. Isto criou esperanças, sonhos e ilusões. A espera limita, cria revoltas, quebra sedações especialmente nos mais jovens, dis...

Inteligência, ferramenta ou habilidade?

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A velha questão dualista sobre inato e adquirido sempre foi um fantasma constante dentro das abordagens psicológicas; nada explica, mas persiste, criando círculos viciosos, tautologias reponsáveis por opiniões, teses, criação de escolas e saberes corporativos. Humanos e animais - seres no mundo - percebem, decidem, agem. O processo perceptivo é comum a ambos, embora restrito aos humanos quando se trata de constatação da constatação, percepção das próprias percepções. Os animais constatam, percebem que percebem, mas não têm estrutura neurológica apta a armazenar e relacionar estas constatações, percepção de percepções; não dispõem de abstrações significativas e conceituais como os humanos. Inteligência é insight, apreensão súbita de relações, implicando em constatação de contradições, reconhecimento e continuidade perceptiva. Esta percepção do insinuado é possível graças à reversibilidade entre Figura e Fundo, possibilitadora de closura. Comumente, inteligência é sinonimizada ...

Paixão

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Estar reduzido a um desejo, estar detido na percepção do outro como sonho, como passagem para o infinito, para o absoluto da felicidade, do bem-estar, do prazer é o que configura o estar apaixonado, é o que configura a paixão. É um encontro, que por ser foco, se torna polarizante, inclusive de posicionamentos. Paixão implica em fragmentação ou resulta da unidade, inteireza e motivação? Ao buscar o que falta, o que completa, o ser humano se encaminha para o abismo, para a descontinuidade de propósitos criadora de posicionamentos. Nesta atmosfera, nesta estrutura, o encontro é resultado de buscas, expectativas e necessidades, é alienador, complementa, mas divide: o simétrico é o oposto, é o duplo, não é o mesmo. Quando somos surpreendido pelo que não percebíamos, não conhecíamos, o encontro se configura revelação, descoberta, conhecimento; é o encontro sem prévio, sem busca: apodítico. Descortina-se outra configuração, outra realidade, outra vivência: paixão pelo encontrado...

Palácios, catedrais e shoppings

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Na Idade Média, onde a condição de sobrevivência era precária, os deslocamentos eram dirigidos para o céu, para os deuses. Olhar para cima, pedir e esperar, cria expectativas. Construir catedrais era uma maneira de depositar os sonhos os medos e esperanças. Dos palácios às catedrais, esta era a arquitetura dominante. A maneira de transcender os limites aniquiladores (peste, fome, morte) era rezar, jejuar, rogar misericórdia. Olhando o processo histórico do desenvolvimento arquitetônico, vemos como tudo convergia para os templos, mesmo antes da Idade Média. Transcendências contingenciadas não transcendem mas permitem fontes de alívio, prazer e esperança. O que faz a humanidade, hoje, quando reduzida às demandas de sobrevivência? Consome - das comidas às bebidas, griffes e pessoas. Shopping centers , parques temáticos e de diversão são as catedrais, os templos que abrigam sonhos perdidos, desejos impossíveis, vidas fantasiadas. O mega entretenimento realiza esta função de cong...

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