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Concentração de frustrações

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Toda submissão é estruturada pelo medo, pela omissão. As extensões desse processo tonalizam incapacidades representadas por inveja, por exemplo. Desejar ser o outro, ou ter o que o outro tem, é, para o submisso, uma carga excessiva. Pontualizado pela sua submissão, tendo sido, ao longo da vida, reduzido a posicionamentos expectantes e autorreferenciados, qualquer situação além dele próprio é extenuante. Neste sentido é fácil entender como a inveja é vivenciada como aquilo que mata. Não ter conseguido o que o outro conseguiu estabelece uma concentração de frustrações e decepções que são disfarçadas e engolidas. Ser o outro, invejá-lo é uma maneira de ressuscitar, e esse nascer de novo é redentor. Todas as vivências e desejos de transformação ilustram esse drenar da não aceitação. Invejar é desejar ser o que não se é. Paradoxo e impasse absolutos. Como ser quando não se é? Exatamente aí, nesse pântano, cresce a inveja. Este alguma coisa, já não é o diferente, é alguma coisa, é o ...

Cracolândia em São Paulo - Solução problemática

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  Um dos exemplos de solução problemática, consequentemente, pseudo-solução, foi o que assistimos estarrecidos, esperançosos e ameaçados, em São Paulo, na chamada cracolândia. A Prefeitura de São Paulo resolveu urbanizar áreas ocupadas por usuários de crack e ao fazer isso achava que estava também resolvendo e ajudando esses usuários, compulsoriamente levando-os à internação, obrigando-os a tratamento. Em menos de 24 horas os craqueiros foram removidos da cracolândia original e, menos de 24 horas depois, passaram a ocupar outros locais próximos. A insurgência, a volta do sintoma foi perturbadora, deixou claro que foram desconsideradas resoluções anteriores estabelecidas com entidades médicas (psiquiátricas), sociais, antropológicas, psicológicas, que vinham sendo responsáveis por mediação, com o objetivo de conseguir estabelecer diálogo e consequente mudança. O surgimento de impasses leva a conveniências e inconveniências, à necessidade de apreender implicações e a p...

Bolhas de sabão

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Bolhas de sabão são quimeras, mentiras e fantasias estruturadas pela frustração, pela não realização do que se deseja. Esse mecanismo de escape - esse deslocamento - caracteriza o sonhador, isto é, o desesperado, o indivíduo que, ao não enfrentar os próprios problemas e limites, inventa mentiras, fantasias, narrativas, delírios. Mentiras, fantasias e delírios são aspectos do mesmo problema: a não aceitação de si, do mundo e do outro. Acontece que as coisas são ou não são; existem ou não existem. Percebe-se ou não. Inventar histórias, negar ocorrências, imaginar-se morador de um palácio quando se vive abrigado por uma ponte, é desorganizador pois sonega a realidade, único ingrediente capaz de realizar mudança. Lidar com o que se tem é estruturante, é denso, factível, permite recuperação. Lidar com o que não se tem, esvazia, não leva a nada, não ocupa, não significa. A verdade é como a túnica de Cristo: inconsútil, inteira, sem costuras; é o que é. A mentira é o remendo, ...

A ignorância é um sistema

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Podemos pensar em ignorância e em ignorante como sinônimos de não conhecimento e daquele que não conhece. Nesse sentido, ignorância, ignorar significa não perceber. Frequentemente, a palavra ignorante é usada para quem não foi ensinado, não aprendeu, daí o ignorante ser também sinônimo de estúpido e grosseiro. Quando a questão é assim colocada, é clara a necessidade de ensino, de escola, de educação para mudar, neutralizar e transformar o estado de ignorância e os seus detentores: os ignorantes. A situação não é tão simples, envolve outras dimensões, envolve várias camadas que configuram uma rede, um sistema a partir do qual são estruturados e mantidos os ignorantes e a ignorância. Perceber o que ocorre enquanto evidência implica em estar diante de. Nem sempre esta dimensão presente é mantida, é vivenciada enquanto presente. A vivência do presente enquanto tal supõe o presente (Figura) estruturado no presente (Fundo). Se há alteração, se o presente é vivenciado em outros ...

Vazio e ambição

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Preocupados em atingir, em conseguir o que não têm, os indivíduos que não aceitam seus limites, suas histórias e vivências, disparam para realizar objetivos e desejos, disparam para realizar metas. Viver em expectativa é viver no depois, no futuro; é não viver no presente, é reduzí-lo a pequenos pontos onde os pés tocam. Perder espaço é perder o tempo. A não vivência do presente, estando o mesmo pontualizado nos apoios sobreviventes, deixa o indivíduo exaurido pela ansiedade. Nessas condições é preciso ter sempre alguma coisa para lutar, para conseguir ou para esperar. A ansiedade tem que ser alimentada. Sem a luta e a espera, o vazio se instala, surgindo, assim, o medo de morrer, de não conseguir chegar onde tem que chegar, medo de perder “o trem da história” , o “cavalo selado” da boa oportunidade. Pessoas vazias são ansiosas, medrosas e se mantêm pelo faz de conta. A mentira estabelece perfis, performances nas quais tudo fica resolvido. A incapacidade, a variação de atitu...

Prudência (1)

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Infelizmente, a prudência, um dos bons aspectos configuradores de autonomia, ou seja, a percepção de limites, dificuldades, flexibilidade e rigidez, pode ser transformada em medo, em desconfiança. Muitos indivíduos se sentem prudentes por amealhar (dinheiro, poder), por esconder recursos, por despistar, esconder do outro, que é sempre visto como diferente, como estranho. Ser prudente é ser autônomo, é ser capaz de perceber limites, não os negar para que possa aceitá-los ou transformá-los. Nos indivíduos autorreferenciados, a vivência de suas não aceitações e conflitos - gerados por compromissos e projetos frustrados - transforma a prudência em ferramenta de verificação, utilidade e sucesso. Prudência passa a ser entendida como cuidado, como desconfiança, como não ter disponibilidade, espontaneidade, como estar sempre com o “pé atrás” para ter recursos e não cair em armadilhas. Prudente, então, não é mais o que constata e se relaciona com limites, prudente é o que antecipa, se ...

Aprisionamentos doentios

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Diante de muitas vicissitudes, doenças constantes e inúmeras, por exemplo, o ser humano se sente incapaz, prejudicado, doente, sozinho. Permanecesse neste sentimento, questionasse este momento, muito seria transformado. Acontece que quando se chega neste estado, geralmente ocorre não aceitação do mesmo. Começam a surgir deslocamentos, caracterizados principalmente pelo medo, pela carência, pela necessidade de ser aceito e cuidado pelos outros mais próximos, como familiares e amigos. Exigir cuidados constantes para justificar as próprias doenças, mazelas e impedimentos cria um contínuo estado de vitimização. Não pode haver melhora neste processo aguilhoante. Mais cuidados, mais amargura, mais desespero. Compreender que a realidade da doença aí está, que a mesma tem que ser suportada e que existem outras coisas saudáveis e válidas, é uma verdade. Esta reação é bem-vinda, causa tranquilidade, mas para ser mantida exige um mínimo de aceitação das situações limitado...

Persistência e padrão

Seres humanos não são máquinas, mas na maior parte do seu dia vivem como se fossem. É uma realidade massacrante suportar esta desvitalização, este massacre do humano. É preciso considerar alguns aspectos que minimizam, que desconfiguram esta mecanização. Estando no mundo, somos organismos, realizamos funções e estamos conectados a inúmeros sistemas que nos caracterizam ao nos descaracterizar como individualidades. Do oxigênio aos pés no chão, a lei da gravidade, estamos realizando nossa trajetória humana. Sem esta repetição, sem esta frequência, sem estes mecanismos respiratórios, deambulatórios, estaríamos inertes, imobilizados. Em certo sentido é mecânico sobreviver, subsistir, manter a nossa humanidade. Precisamos realizar as funções mecânicas, automáticas, medulares para realizar o cortical, o relacional, o perceber o outro. A persistência deste processo libera individualidade ou a sobrecarrega. Tudo vai depender de como nos relacionamos com os padrões (ambientais, cerebrais, o...

Encaixes

Para certas pessoas, para certos indivíduos, a única coisa a ser feita é encaixar-se, adaptar-se, adequar-se ao que vier. A redução à sobrevivência, às necessidades básicas, é a atitude que caracteriza estas pessoas. Como se consegue esta redução das dimensões psicológicas, das dimensões relacionais, aos aspectos puramente orgânicos da sobrevivência? Ter passado fome, ter passado dificuldades, ser uma pessoa desconsiderada, tratada frequentemente como escória, nada significando, faz buscar um alento, o alimento, o afago - mesmo que humilhante - é a única saída vislumbrada. Vidas adequadas são vidas encaixadas. Este transformar-se em peça da engrenagem, validade compromissada e apta para alívio, “felicidade líquida” (como conceitua Zygmunt Bauman ), identifica consumidores e consumidos. Neste contexto, viver é adequar-se ao que parece dar bom resultado e evitar o que pode causar distúrbio ou massacrar sonhos. Mulheres que apanham (para que a família continue mantida); seres que se pr...

Fácil e difícil

Fácil e difícil são critérios extrínsecos ao que acontece. Nada é fácil, nada é difícil enquanto situação que acontece. Só existe critério de facilidade ou de dificuldade quando mediações avaliadoras são exercidas. Medir, configurar, avaliar situações enquanto facilidade ou dificuldade varia de indivíduo para indivíduo, de época para época. Exemplo bem contemporâneo: nada mais fácil do que fazer refeições fora de casa, menos de cem anos atrás esta era uma situação cheia de dificuldades. Se considerarmos as necessidades fisiológicas, que por definição são sempre fáceis ou difíceis à depender da higidez orgânica, podemos começar a perceber a facilidade/dificuldade desta questão, enfim, começamos a perceber que o problema não se esgota em si mesmo, exige sempre interfaces configuradoras. Viver, sobreviver, ser feliz, ser disponível é o que há de mais fácil, tanto quanto de mais difícil. Educar-se, educar filhos, viver em sociedade, participar de grupos, conhecer assuntos e explicá-los...

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