Saltos e piruetas

 



Ter objetivos definidos, desejos de superação de dificuldades e propósitos determinados, frequentemente funcionam como molas propulsoras. Esse estímulo constante faz com que se caminhe, se busque realizar desejos de complementar o que falta. Assim, propulsão constante, avidez e ganância funcionam como engolidores, neutralizadores da caminhada. Não se sabe como caminhar, não se vê como andar, mas se sabe onde se quer chegar.

Todo relacionamento cria mudanças e a anulação de caminhos, o apagar de direções faz surgir novas posturas. Saltos e piruetas ilustram bem esse processo. Do caminhar em pé, bípede, descobre-se um jeito de cortar caminho, diminuindo dificuldades ao fazer piruetas. Enrolar-se em si mesmo para pisar-voar é a maneira, às vezes, de atingir objetivos impossíveis para o contínuo desenrolar de atitudes.

Pular etapas roubando, por exemplo, mentindo, sugestionando, implorando, usando o outro é uma forma de atingir o que se deseja. Vitórias conquistadas pelo oportunismo criam mudanças sedimentadas: é o rastejante, é a transformação do bípede. Nesse contexto, o que é importante não é o que se é; o que importa é o que se esconde, o que se nega. Enganar é a regra de ouro desse universo. Não importa nada além de fingir para conseguir o que se quer. Casais, famílias, clubes, escolas, comunidades religiosas e políticas orientadas sob esse propósito de mentira, de engano, criam convergências cada vez mais alienantes. Os grupos englobam individualidades destruídas e esmaecidas para que assim se produzam as fortalezas associativas. São os partidos, as comunidades, os clãs. É a regra cotidiana que tudo nega, que destrói espaços, pois de saltos em saltos, de piruetas em piruetas, pódios são atingidos e organizados, perdendo-se assim a perspectiva de continuidade, fundamental para sobrevivência do humano. As coligações e acertos atuais são mais solapadores que guerras ou cataclismos, desde que é a própria humanidade que é obliterada e destruída, fazendo-se pouco caso, ou seja, sendo negada. É a carne, é a bucha de canhão das conquistas e agrupamentos. 

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