"Se queremos preservar a cultura devemos continuar a criar cultura"

 


 

Outro dia, lendo Johan Huizinga - "Nas Sombras do Amanhã" (1935) - me detive na afirmação: "Se queremos preservar a cultura devemos continuar a criar cultura". Nesse sentido podemos entender cultura como acúmulo de conhecimento, como baluarte civilizatório e assim perceber que a educação é o que vai possibilitar a continuidade dos processos culturais. O ir para diante, o continuar cultura e ampliar confortos civilizatórios, sempre aparece mesmo em pequenas soluções diárias, como por exemplo manter a caneta e o tinteiro agora substituídos pela esferográfica, ser capaz de transportar líquidos, como coca-cola e água engarrafada, entrar em contato com o outro e suas ideias pelos livros e blogs, a digitalização dos processos, os botões que a um aperto tudo resolvem, e até a destruição dos mesmos via acionamentos perigosos e proibidos. Tudo isso é cultura, é civilização, principalmente agora exercida pelos avanços tecnológicos, aspectos que atualmente caracterizam a nossa cultura. Esse esquema que hoje se apoia no binário - 0101010 - invade até nossa maneira de sentir, de pensar, de decidir. Os corpos são transformados e transições se impõem quando tudo é reduzido à mecanização do humano. Tudo pode ser feito, desde que se queira. Essa redução e utilização de processos a propósitos convergentes ou distorcidos é aniquilação da humanidade, pois está servindo indústrias biológicas e armamentistas. Chegaremos a poder escolher ter feições de pessoas ou de animais, ter acréscimo e simulação de patas, por exemplo? Enfim, a escolha do que vai ser tatuado se amplia, outras dimensões são atingidas e os deslocamentos das próprias não aceitações são realizados.

Cultura não é apenas tecnologia, ou melhor, a tecnologia é uma dimensão da cultura que vai permitir sua continuidade e preservação, caso os pilares sustentadores da mesma sejam preservados. A educação, o convívio com o outro, o dispor de mecanismos para expressar ideias (na nossa cultura: alfabetização, acesso a escolas, leituras, computadores etc.), a tecnologia como neutralização de limites e dificuldades, são fundamentais. A globalização, as guerras, os destruidores de núcleos específicos podem diminuir a possibilidade de continuidade cultural, desde quando instalam objetivos e propósitos nos quais todos devem ser inseridos indiscriminadamente. Esses processos, no mínimo, criam dois blocos consequentemente opostos, adversários, polarizados, por meio dos quais tudo é pensado, vivido, "culturalizado", e assim, o que consequentemente desaparece é a possibilidade de antíteses, pois as conversas de surdo são instaladas. Tudo se fala, nada se ouve, por isso não há interlocução. A mesmice, a sobrevivência se impõem. Nada caminha, desaparecem as possibilidades de continuidade, e o único que continua é a divisão, o antagonismo, que não é antítese já que os pontos em comum foram destruídos. Quando essa subtração se estabelece não há como preservar nem continuar uma cultura, apenas se repetem dogmas, regras, alardes falsos, notícias mentirosas. A continuidade é exercida pelos sobressaltos, pelos pulos e vazios que passam a estruturar o estar no mundo.

Conflitos familiares e sociais, guerras são situações nas quais a continuidade do viver, do sobreviver é quebrada. A cultura enquanto aprimoramento civilizatório é transformada em slogan, dogma, e assim ela é descontinuada, não há preservação da mesma. Os processos de alienação e desumanização aparecem, substituindo a satisfação de estar no mundo com o outro, de estar com o semelhante, o igual, o que fala a mesma língua. Desenhos, fonemas, ideogramas são sinais que a todos norteiam, que permitem este falar: é continuidade, é preservação de contextos, de atmosferas culturais e civilizatórias.
 

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