Último acontecimento: guerra Ucrânia-Russia



Para entender qualquer coisa que acontece é necessário perceber o contexto e as implicações do que está acontecendo. O fato, o acontecimento é apenas um elo, um instante de uma sucessão, de um processo. Todo acontecimento é um momento, congelamento de processo quando visto como um fato, pois nesse destaque a continuidade é artificialmente quebrada. Quando se fragmenta processos em explicações de causa e efeito cria-se uma linearidade, uma simplificação que apenas açambarca fatos transformando-os em fontes mecanicistas e explicativas. Achar, por exemplo, que se é médico, engenheiro, músico ou professor por ter vocação e talento é admitir prévios, causalidades determinantes. Essas explicações baseadas em determinismo e vocação negam, cancelam toda uma vivência cultural e histórica, todo o processo relacional que configura o estar no mundo.

Nos últimos dias assistimos as explicações jornalísticas sobre a guerra da Ucrânia-Russia. O que se ouve, o que se vê é a criação de referenciais valorativos baseados em bem e mal, e essa é a dinâmica apresentada para explicar a realidade dos ataques, para explicar a guerra. Demonizar Putin, exaltar a democracia americana, a bondade europeia em conviver com os considerados bárbaros e selvagens eslavos, é um tipo de abordagem que estabelece critérios que criam contextos valorativos a partir dos quais o que está acontecendo passa a ser percebido e consequentemente entendido. A guerra é o resultado de choque de interesses e de motivações. Ninguém briga sozinho. Nas esferas familiares, por exemplo, o filho que rouba a mãe para se drogar não é uma vítima, não é um algoz, é simplesmente um alijado das ordens constituídas e, portanto, suas motivações só podem ser compreendidas quando se percebe as configurações de seus deslocamentos e insatisfações. Ouvir sobre a guerra deveria ser saber do fracasso ou da impossibilidade do diálogo, saber que interesses e inconveniências foram atingidas, e que se tenta recuperar, através da violência, o que violenta e arbitrariamente foi estabelecido. A guerra é discórdia, é sempre uma quebra, uma descontinuidade, e assim são criados os abismos que devoram a humanidade, deixando-a sem chão, sem caminho.

Esta guerra Ucrânia-Russia, por exemplo, além de ser óbvio conflito de interesses, colapso da razão e do entendimento, é principalmente consequência de acordos descumpridos de ambos os lados, com provocações, ações políticas e interesses econômicos. A guerra contada, televisionada, filmada, comentada é sempre transformada em um contexto no qual se procura validar estigmas e dogmas. Isso ocorre com qualquer acontecimento quando transformado em matéria provatória do bem e do mal que se supõe constituir seus atores. Não existe fato isolado. Não existe guerra criada pela maldade ou pela bondade. A guerra é sempre a resultante final de um processo e o início inevitável de outro. É assim com qualquer coisa que acontece, é assim que são estruturados os processos, as sequências vitais, os empreendimentos construtivos e também os destrutivos. Falar disso partindo de outros acontecimentos, outros contextos diferentes daqueles nos quais os acontecimentos são estruturados, é pinçar fatos, "puxar a brasa para a própria sardinha". Brigas de casais, separações, disputas de dinheiro e poder, governanças estão sempre a mostrar a necessidade de que os fatos sejam explicados pelas variáveis que os estruturam, por seus constituintes. Quando se faz acréscimos ou deduções, se mutila o que aparece, o que acontece, e assim a realidade é distorcida. Esses cortes destroem a possibilidade de verdade, ensejam distorções que criam novas realidades, novas figuras que não se referem a nada que ocorre, e então tudo é pretexto, desculpa, urdidura para atingir objetivos próprios. O que acontece, o fato, vira pretexto, criação antecipada do que se deseja criar, enganar, vender. Este acontecimento - guerra - é a resultante de processos e quando desvinculado de seu contexto estruturante, vira apologia para o medo, para a vitória ou para o fracasso, para novas guerras, novos álibis, tornando-se justificativa para outras guerras ao fazer de conta que se luta pelo que se luta, quando na realidade são outros acontecimentos, outros significados que se agregam. Discernimento, atitude não valorativa, é a melhor arma para perceber o que acontece: a briga entre A e B, entre um lado e outro, resulta sempre de um terceiro ponto que descontinua a sequência.

 


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