O medo da morte


 

Ao antecipar o futuro, ao continuar as implicações do que ocorre caminha-se para abismos, pois não há terra onde caminhar. No seu processo de vida o indivíduo descobre que existem finais. A morte, o cessar da vida é um desses finais comuns a todos os humanos. Esse conhecimento é tão simples e completo quanto saber que se é um corpo, um organismo constituído de células, tecidos, órgãos, que se mora em uma cidade, que se tem uma família. É uma informação, um referencial. Certos acontecimentos, e o passar do tempo, tornam relevante e pregnante a constituição finita do humano. A dramaticidade ou não dessa pregnância depende de quem, como e quando é vivenciada. Os limites, a doença, a idade, a época, a pandemia, a guerra, tornam muito próximo esse referencial, sempre percebido como condição humana, embora distante. Quanto mais próxima a possibilidade de morrer, maior a aceitação ou a não aceitação, menor ou maior o medo da morte. A morte quando vista como decorrência do processo de vida, é aceita. Quando não é assim percebida, ela é rejeitada, temida.

Quando morrer é percebido como o que faz parte da vida, temos o processo configurado em toda a sua dinâmica, e essa configuração de totalidades humaniza. Quando a morte é vista como corte, como final, como nada mais resta, tudo acabou, ela é percebida como abrupta, alheia à vida. Nesse contexto ela é temida, tudo se faz para adiá-la, até mesmo não viver, como faz o hipocondríaco que pensa que só a morte cura a doença.

Acreditar em outra vida, na eternidade do espírito é uma maneira de negar a morte. Não há vida eterna, e mesmo que houvesse não seria vivenciada pelo indivíduo que morre; outras esferas estariam existindo, nas quais a morte não é mais ela. Assim, acreditar na vida eterna é uma maneira de negar a morte e consequentemente, a vida. O importante do morrer é que não sabemos quando isso está ocorrendo, nesse sentido nunca morremos, salvo por antecipação: pelo medo, pela aflição que dificulta a vida. Somos eternos se vivermos no presente, mesmo quando imersos em aflição e doença.

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