Postagens

Processo dialético - Mudança e acomodação

Imagem
Todo processo - dos psicológicos aos sociais - é dialético. Isto significa afirmar que todo processo é movimentação permanente, intrínseca ao próprio processo (tensão entre situações diversas e opostas, teses e antíteses configuradoras de sínteses). É oportuno, mais fácil, explicar o que acontece como se tivesse sempre uma causa interveniente, situações iniciadoras; mas essa abordagem resulta de desconhecer ou de negar o processo dialético, negar o surgimento de impasses que são decorrentes das forças em jogo. A mudança não pode ser explicada buscando causas, origens determinantes da mesma; ao fazer isto instalam-se reducionismos, criam-se culpados e responsáveis alheios ao processo que está se desenrolando, embora pertencentes e contextualizados em outros processos. Estas distorções, decorrentes da não globalização dos acontecimentos, ocorrem tanto no âmbito político-social (partidos políticos, agremiações etc) quanto no âmbito privado (crises individuais e familiares etc), cons...

Povo na rua

Imagem
As crenças acomodam, mas também destroem quem nelas se posiciona.  A antítese ao marasmo, cooptação e arrendamento é o novo que acontece agora nas avenidas, praças e ruas da maior parte do Brasil. Emerge a insatisfação diante das históricas mentiras apregoadas, manifestações com o povo nas ruas acontecem imprensadas entre festas, comemorações, gastos faraônicos das copas futebolísticas e opacas e ameaçadoras realidades caracterizadas por: transporte público caro e ruim, impostos régios, cidades insalubres e sem segurança, educação deficiente, sistema de saúde pública precário com imensos problemas logísticos e carência de profissionais, corrupção política, impunidade e justiça lenta etc. Durante muito tempo a sociedade brasileira vem sendo sedada sob várias formas, desde o "milagre brasileiro" até a classificação de quinta economia mundial. Isto criou esperanças, sonhos e ilusões. A espera limita, cria revoltas, quebra sedações especialmente nos mais jovens, dis...

Inteligência, ferramenta ou habilidade?

Imagem
A velha questão dualista sobre inato e adquirido sempre foi um fantasma constante dentro das abordagens psicológicas; nada explica, mas persiste, criando círculos viciosos, tautologias reponsáveis por opiniões, teses, criação de escolas e saberes corporativos. Humanos e animais - seres no mundo - percebem, decidem, agem. O processo perceptivo é comum a ambos, embora restrito aos humanos quando se trata de constatação da constatação, percepção das próprias percepções. Os animais constatam, percebem que percebem, mas não têm estrutura neurológica apta a armazenar e relacionar estas constatações, percepção de percepções; não dispõem de abstrações significativas e conceituais como os humanos. Inteligência é insight, apreensão súbita de relações, implicando em constatação de contradições, reconhecimento e continuidade perceptiva. Esta percepção do insinuado é possível graças à reversibilidade entre Figura e Fundo, possibilitadora de closura. Comumente, inteligência é sinonimizada ...

Paixão

Imagem
Estar reduzido a um desejo, estar detido na percepção do outro como sonho, como passagem para o infinito, para o absoluto da felicidade, do bem-estar, do prazer é o que configura o estar apaixonado, é o que configura a paixão. É um encontro, que por ser foco, se torna polarizante, inclusive de posicionamentos. Paixão implica em fragmentação ou resulta da unidade, inteireza e motivação? Ao buscar o que falta, o que completa, o ser humano se encaminha para o abismo, para a descontinuidade de propósitos criadora de posicionamentos. Nesta atmosfera, nesta estrutura, o encontro é resultado de buscas, expectativas e necessidades, é alienador, complementa, mas divide: o simétrico é o oposto, é o duplo, não é o mesmo. Quando somos surpreendido pelo que não percebíamos, não conhecíamos, o encontro se configura revelação, descoberta, conhecimento; é o encontro sem prévio, sem busca: apodítico. Descortina-se outra configuração, outra realidade, outra vivência: paixão pelo encontrado...

Palácios, catedrais e shoppings

Imagem
Na Idade Média, onde a condição de sobrevivência era precária, os deslocamentos eram dirigidos para o céu, para os deuses. Olhar para cima, pedir e esperar, cria expectativas. Construir catedrais era uma maneira de depositar os sonhos os medos e esperanças. Dos palácios às catedrais, esta era a arquitetura dominante. A maneira de transcender os limites aniquiladores (peste, fome, morte) era rezar, jejuar, rogar misericórdia. Olhando o processo histórico do desenvolvimento arquitetônico, vemos como tudo convergia para os templos, mesmo antes da Idade Média. Transcendências contingenciadas não transcendem mas permitem fontes de alívio, prazer e esperança. O que faz a humanidade, hoje, quando reduzida às demandas de sobrevivência? Consome - das comidas às bebidas, griffes e pessoas. Shopping centers , parques temáticos e de diversão são as catedrais, os templos que abrigam sonhos perdidos, desejos impossíveis, vidas fantasiadas. O mega entretenimento realiza esta função de cong...

Avidez

Imagem
Estar submisso, ser desconsiderado, ser invisível (pobres, desempoderados, idosos, mulheres às vezes) gera revolta, gera medo e não aceitação. A carência afetiva, nestes contextos e estruturas, é transformada em necessidade de relacionamento, surgindo assim, distorções, perversões e dependências relacionais. Ao não se aceitar, o ser humano observa e deseja padrões aceitáveis, cogitando que se atingí-los, vai ser aceito: seu mundo vai mudar, vai ser amado, considerado. No Brasil colônia, ou até pouco tempo atrás, ser negro ou aparentar qualquer sinal de negritude era responsável por não aceitação. É bem conhecido quão danoso foi o chamado "processo de branqueamento" em termos sociais e também enquanto realidade psicológica geradora de não aceitação; atualmente as denominadas auto-estima e cidadania plena, escamoteiam os processos discriminatórios. Na avidez de ser aceito, tudo se faz, tudo se busca para realizar esta motivação. Na adolescência, este processo é nítido...

Preocupação x Ocupação

Imagem
A preocupação é uma vivência do não presente, é uma antecipação da ocupação; ocupar-se de é relacionar-se com algo existente. Em geral, o indivíduo, ao invés de se ocupar com os próprios problemas, se preocupa com os sintomas que os encobrem como se os problemas não existissem. Assim, se torna preocupado com a velhice, com a conquista de um emprego valorizado, com o desempenho profissional, com relacionamentos garantidos e seguros, com o desenvolvimento dos filhos, com a aparência física e  imagem social, com os sintomas que surpreendem etc ao invés de deter-se na problemática de onde tais preocupações são decorrentes. Ocupar-se da própria problemática e não de como ela aparece, possibilita a vivência do presente. Preocupar-se com imagens, com sintomas, por exemplo, é esvaziador, desumanizante por transformar o outro no testemunho circunstancial do fracasso ou do sucesso; faz perder autonomia, transforma os referenciais relacionais em sinalização de apreço ou desapreço, consi...

Expectativas

Imagem
As expectativas são fontes geradoras de medo mesmo quando o esperado é bom e desejado. Temer o que pode acontecer de ruim, ter medo da morte por exemplo, é uma expectativa onde o espectro do ruim se impõe, mas a expectativa do desejado, a festa de formatura, por exemplo, pode também criar medo e apreensão. Toda meta esvazia, todo vazio desumaniza, cria espaços de não ser, responsável por temor. Frequentemente as expectativas não são contidas pelos próprios limites do corpo. É comum saber dos infartos, acidentes e outros problemas físicos às vésperas da realização do grande sonho, dos casamentos próprios ou dos filhos, por exemplo. A expectativa aponta sempre para caminhos divididos: o que é bom e o que não é. Ter expectativa é ser direcionado para avaliar e esperar e isto cria tensão e mal-estar. Esperar que tudo dê certo é aniquilado pela homogeinização perceptiva - desaparece qualquer motivação, resta apenas conferir. Quando as expectativas ainda comportam dúvidas, mais ani...

Cotidiano e repetição

Imagem
Não é a mesmice, o que tem que ser feito, que configura o cotidiano. Cotidiano é o que acontece todos os dias. Frequentemente o cotidiano é percebido como o que anda sozinho, como o que é mecânico, o que decorre de pequenos acenos ou apertos de botão. A certeza da repetição intrínseca ao que é cotidiano, o transforma em manutenção. Tudo que é mantido, que é repetido, é alienador. Fazer todo dia o que se faz, de dormir a trabalhar ou divertir-se, pode ser vivenciado como manutenção, automação ou como participação e enfrentamento. Participação pressupõe o outro, o mundo - é um potencial dinâmico de encontro, de desencontro, de deslizamentos e imobilizações. Nada se repete, tudo que é igual pode ser diferente. Qualquer vida se desenrola no dia-a-dia, é o processo cotidiano do estar no mundo. É uma repetição monótona e previsível quando estamos dedicados a manter e é uma aventura diária, constante, nova e excitante se estivermos dedicados a perceber e unificar as contradições con...

Desconfiança

Imagem
Como seres humanos somos sistemas relacionais, pontos de convergência/divergência de inúmeras variáveis, somos necessidades e possibilidades de relacionamento. Viver em função de satisfazer necessidades, posiciona. Esse posicionamento estrutura autorreferenciamento. No autorreferenciamento procura-se verificar conformidades, confrontar regras e padrões, pois acha-se que é isso que une, que gera familiaridade e confiança. A atitude decorrente dessa estruturação autorreferenciada é a avaliação: verificação do outro e dos acontecimentos da vida.  Constantemente medindo e avaliando, consegue decidir, aproveitar o máximo e atingir os ideais familiares e comunitários. Dessa forma, passa-se a viver sem confiar no que ocorre, no que  percebe: nada se explica por si mesmo, tudo deve ser verificado. É a falta de espontaneidade equivalente à pesquisa cadastral e curricular para que se possa entrar em contato com o outro. A confiança assim adquirida é fruto de manipulação e de regra...

Contato

verafelicidade@gmail.com