Magia e realidade
Magia e realidade, em outras palavras, desejo e evidência
É comum dizer que somos seres desejantes por sermos incompletos e finitos. A implicação disso é terrível: equivale a dizer que a falta e o limite são os destruidores da harmonia da existência. Pensar o que é completo como sendo isolado, o todo independentemente do que o estrutura e motiva, é arbitrário. É a magia que se estabelece ao imaginar que ao unir dois pontos criamos a reta. É não perceber que a reta existe e ela é apenas uma sucessão de pontos, assim como o ponto é apenas interseção de retas.
Não existe o humano sem o mundo, não existe o humano como resultado da criação divina ou simplesmente fruto da evolução biológica. Existe o humano como presença de ser com o outro. Essa interação é mágica e real. Quando negada surgem os despersonalizados transformados em objetos a serviço do sistema despersonalizador, que pode ser a família ou a escola, por exemplo. Negar o outro, achar que somos “criaturas de Deus” ou escravos e senhores de sistemas sociais e econômicos, é afirmar o humano como objeto manipulável, esvaziado de sua singularidade humana, ávido por sentido e propósito de vida.
Buscar uma finalidade para o existir humano é uma das maneiras de negar a nossa humanidade. Estar no mundo, existir, é tudo que nos caracteriza. Quando essa característica é negada, alterada, vem a despersonalização, o viver para realizar propósitos, metas e desejos. Sendo assim, buscar descobrir a missão de vida é se despersonalizar. O desespero atual, nesse nosso mundo distópico, é o indivíduo achar que falhou, ou seguir lutando para alcançar sucesso e proeminência dentro dos limites desumanizadores.
Esperar a redenção dos atos por uma consciência sábia e divina é o mesmo que adiar o que se vivencia, e, assim, antecipar medo e submissão ao que se evita acontecer.
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