Questões sociais, questões psicológicas
Quando pensamos, conceituamos e nos detemos nas questões humanas, o dado psicológico, isto é, o dado perceptivo relacional, é fundamental para abranger e explicar o comportamento humano. Equivale a dizer que tudo começa e acaba no psicológico, ou seja, na percepção de si, do outro e do mundo, do que acontece. Esse conhecimento é a percepção, e estrutura o que significa estar no mundo com os outros ao apreender as relações estabelecidas. Quando declaro que perceber é conhecer, e ainda, que esse conhecimento é, consequentemente, significativo, não me posiciono no idealismo, ao contrário, critico o idealismo que se constitui em convicções caracterizadas pela ideia de que mente e consciência definem os dados perceptivos, os configuram dando-lhes significados. A afirmação de conceitos como os de mente e consciência decorrem das posições cartesianas clássicas e do empirismo associacionista dominantes na filosofia e psicologia, sobretudo na psicofísica e psicanálise.
Percebemos, conhecemos e assim estabelecemos relações, apreendemos totalidades, integrando-as ou fragmentando-as. O processo de integrar o todo como todo, ou de parcializá-lo em função de outros referenciais, outras totalidades, é fundamental para entender a trajetória relacional do ser humano, de seu comportamento.
Valores tais como atribuição de vantagens ou de desvantagens não são percebidos com essas sinalizações quando estão ocorrendo. A barra de ferro que está diante de meus olhos, caindo em minha frente, é a barra de ferro diante de mim, caindo. Ser boa, ruim, ameaçadora ou solucionadora, é outro momento, outra percepção, outra constatação.
A superposição ou interceptação de vivências estabelece significados vivenciados como positivos ou negativos, integradores ou desintegradores. Vejamos as interceptações sociais, econômicas e psicológicas que, quando não percebidas e apreendidas como interceptações de inúmeras variáveis, criam distorções e reducionismo. Alguns temas são importantes, são enigmáticos ou elucidativos para esclarecer essa questão. Quando a realidade é percebida como situações divididas pelas hierarquias valorativas surgem abrangências que distorcem as questões colocadas. Pobreza e bem-estar, discriminação social e satisfação pessoal, por exemplo, são fundamentais para entendimento do processo da não aceitação redutora do humano, que passa a ser massa de manobra social, econômica, religiosa e identitária.
É muito comum ouvir, ler e aprender que a falta de oportunidades e condições econômicas gera seres humanos revoltados e despersonalizados. Quando se acredita e aceita essa explicação, se está aceitando que a dimensão econômica é o que humaniza ao permitir o desenvolvimento do potencial humano. É esse tipo de explicação que justifica o anseio de vencer na vida que vemos nos indivíduos das classes econômicas menos favorecidas. Ter o desejo de ser doutor, ser amigo de influentes, vender o voto, fazer parte de partidos e agremiações religiosas e esportivas, são alavancas para o progresso, maneiras de sair da pobreza e vencer na vida. Livrar-se de estigmas frequentes, relacionados à pobreza, a etnias segregadas ou a aspectos biológicos discriminados, é ascender na escala social, no que é considerado progresso. Enfim, vencer o limite, o preconceito, é o que se coloca. Jamais se questiona a não aceitação da condição em que se vive, da realidade que situa, dos estruturantes que presentificam o estar no mundo. E assim, coisificado pelo resultado a atingir, pela negação do que se vivencia, do próprio presente, da realidade que o situa, o indivíduo nega o próprio chão que caminha e se agarra em próteses, instrumentos, voadoras, “tirolesas”, para atingir seus propósitos. Quando conquista suas metas, surge a indagação: tenho dinheiro, status, significo neste sistema, mas quem sou eu? Um vencedor que deve manter seu sucesso, ou um fracassado que não pode desistir de vencer?
A negação do presente, a não aceitação da própria realidade gera títeres manipulados pelos sistemas de dominação econômica e social. Nesse contexto, vencer na vida, ser reconhecido, equivale a exibir o bilhete de entrada sem retorno no inferno, no mundo das ilusões perdidas quando realizadas. É viver para, negar-se como participante da própria origem e, agindo assim, transformar o constituinte em significado aderente: ser pobre é ruim, ser caolho ou ter olhos azuis ou o cabelo crespo é impeditivo de sucesso e realizações. Deter-se no que é considerado impeditivo ao que se deseja e sonha explicita despersonalização, reforça as próprias não aceitações ao concordar que elas são deméritos, e como tais precisam ser transformadas para usufruir das consideradas maravilhas do mundo rico. É típico ouvir pais esforçados dizerem: “trabalho jornada tripla para que meus filhos estudem nos melhores colégios privados, e assim, farão parte do mundo rico onde eles terão um lugar”.
Não se aceitar e não questionar os entraves colocados pelos sistemas sociais e econômicos gera títeres, zumbis, seres desesperados que vivem para lutar e se organizar em função de conseguir o que os outros têm e eles não possuem, e por isso não questionam as estruturas que os oprimem. São distorções das próprias capacidades, surgem da não aceitação do presente, da configuração da luta de classes (resultante da apropriação indevida) criando a solução enganosa expressa em: vencer na vida, ter a própria realidade e identidade reconhecidas e aceitas. É a admissão de que só posso ser eu mesma à medida em que o sistema, a sociedade me aceite. É a troca do um pelo múltiplo, da aceitação do outro pela aceitação do grupo. Psicologicamente essa imersão gera inúmeros problemas: desde inveja, agressividade, passividade e submissão, até desespero e maldade quando se vê ameaçado nos próprios comportamentos e poder estabelecidos.
Viver é lutar, cada ato possibilita uma antítese e assim o homem se realiza como síntese resultante de ser presente, de seu estar com o outro enquanto ele próprio, sem faz de conta, sem desejo, sem metas (futuro) ou a priori (passado). Conhecer, cair, sentar e levantar, seguir o próprio processo é humanizador e realizador. Ser pobre, ser rico, ser considerado bonito ou feio, ser aceito ou rejeitado, nada significam quando se caminha sem metas, sem valores positivos ou negativos.
O humano só se estrutura, define e surge autônomo quando existe aceitação de si mesmo enquanto ser no mundo com o outro. É a vivência desse processo que torna possível a existência feliz, humanizada, independentemente de limites e determinantes sociais e econômicos. A humanidade tem sobrevivido e existido pela transformação de contingências e limites: físicos, sociais, econômicos, religiosos e políticos. Guerra e paz são resultantes de processos alienadores, mas, são também as alavancas de antíteses ao arbitrário e desumanizador. É a partir da vivência de aceitação de si, que se tornam possíveis antíteses transformadoras de si, do outro e do mundo.
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📘 "Para haver mudança não basta vontade e desejo de mudar, são necessárias antíteses, situações, realidades que se antagonizem". In: Emparedados pelo vazio
📕 "Transformar o indivíduo que está impermeabilizado em participante, via enfoque psicoterápico, é criar novos encontros, novas configurações". In: Autismo em perspectiva na Psicoterapia Gestaltista







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