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Indivíduo - Sociedade

Metafórica e simplificadamente, a sociedade é a casa, o espaço que habitamos, que vivemos. Este contexto nos suporta, nos abriga, tanto quanto sinaliza e indica - através de valências e significados relacionais - normas, valores e caminhos a percorrer e a evitar. Quanto mais aberta, transparente e verdadeira, no sentido de que o indicado é o indicado, mais consistente a possibilidade de posicionamentos, diálogo e questionamentos. Sociedades regidas por políticas ditatoriais, ou sociedades que, sob o rótulo de democráticas, agem escondendo propostas absolutistas e escusas, funcionam como ambientes escorregadios onde tudo é mantido em função dos dirigentes ou de propósitos açambarcadores de individualidade para pseudo soluções através de regras coletivas. Viver com leis que garantam a democracia, a igualdade de todos - e não a sinonimização destas leis com privilégios, com regras econômicas e religiosas ou com políticas dogmáticas -, é o que permite diálogo, mudança, crescimento. A...

Homogeneização - politicamente correto

Transformou-se em regra tirânica a ideia do politicamente correto estribada em ter os mesmos direitos, em não ter preconceitos nem discriminação e é terrível a homogeneização que isto significa para o indivíduo enquanto diversidade psicológica relacional e para os sistemas oriundos de culturas diversas. Outro dia li sobre um movimento crescente nos Estados Unidos, de pessoas obesas revoltadas com a aparência e com a magreza dos professores de yoga, identificando isto com elitismo e preconceito, sentindo-se discriminadas nas aulas seja por falta, seja por excesso de atenção por parte dos professores ou sentindo-se excluídas das peças publicitárias sobre yoga. Por fim, estabeleceu-se um movimento de abandono dos estúdios tradicionais de yoga, por parte dos obesos, e criação de estúdios específicos para este público, com professores também obesos e muita publicidade duvidosa sobre discriminação nos ambientes yoguis, que justificavam a criação de tais estúdios e ampliação de mercado ...

Reciclagem

Tudo é aproveitado quando se está dedicado a realizar as próprias demandas neuróticas (de não aceitação, de querer ser aceito). Essa equação - tudo aproveitar - é facilmente resolvida ao se colocar como objetivo da existência, ser aceito, significar alguma coisa valorizada pelo próprio grupo ao qual se pertence. Nesse contexto, as vivências se desenvolvem e tudo que é percebido recebe a tonalidade desse desejo de aceitação. O desespero que congela e limita, por exemplo, é transformado em situação diferenciada na qual a capacidade de ajuste, o cinismo são relatados como vitória, como capacidade de sobreviver. Os processos de reciclagem são infinitos. Tudo que cai no contexto das metas e objetivos de ser aceito, é considerado. A coleta, a contabilização é feita. Nada escapa. Ser rejeitado, literalmente “levar um ponta-pé”, cair é utilizado como força muscular probatória de resistência, de resiliência. Do processo à trituração, nada escapa, até que se consiga cunhar a moeda da exper...

Deslocamentos (abandono)

A melhor maneira de manter uma situação de relacionamento é modificando-a. Modificações sugerem sempre reformas, adequações. Modificar pode representar, em última análise, abandono, desde que ao modificar reestrutura-se o existente segundo novas motivações e propósitos. Pessoas não são coisas, embora possam assim ser percebidas. A transformação de pessoas em objetos, em coisas, tem seu início quando se estabelece julgamentos e apreensões funcionais. Determinar a função de cada um, estabelecer seu uso, cria prazo de validade, transformando o outro em matéria-prima para os próprios desejos. Nas relações de casal, ao constatar o término da motivação, o encerramento do afeto, tanto quanto a manutenção do compromisso, dos temores e vantagens, surgem dilemas, impasses, conflitos que angustiam, que geram ansiedade e comprometem o funcionamento diário. Sem saber o que fazer, cheios de tensão, tenta-se modificar o que está existindo e assim as situações se repetem. Angustia, desespero...

Capacidades transformadas em limites aniquilam o indivíduo

Seres humanos dispõem de inúmeras capacidades de transformar tudo que está ao seu redor, inclusive de transformar o outro e a si mesmo. Esta constante capacidade de diálogo e transformação, se exerce em função de seus referenciais constituintes. Quanto mais limitado e voltado para sobrevivência, para realização de necessidades, ou quanto mais centrado no que estabelece como prazer, mais autorreferenciado, empenhado na realização de suas necessidades de sobreviver. Nascido e desenvolvendo-se em atmosferas - sociedade e família - onde o valorizado e significativo é o que se consegue, é o que se amealha, o desenvolvimento humano, individual, vai personalizando estas atitudes, mesmo que discordando do que lhe é mostrado. Um típico exemplo desta configuração é a atitude desleixada do filho em relação aos valores conservadores dos pais, mas, que se mantém totalmente dedicado à manutenção dos propósitos e ideais do grupo vanguardeiro a que pertence, chegando a lutar, discriminar tudo qu...

Aplausos

Os aplausos animam, incentivam, tanto quanto comprometem ao criar expectativas de mantê-los. As expectativas estabelecem medo de falhar, possibilitando assim, tensão diante de possíveis frustrações. Ser aplaudido é ser reconhecido, no mínimo como alguém a quem se deve admiração, reconhecimento. Situações de ser aplaudido sempre expõem o indivíduo. A vivência desta exposição varia de pessoa para pessoa. Uns, tudo fazem para conseguir este resultado, o aplauso, e tanto empenho para conseguí-lo compromete, não se discerne mais o espontâneo do programado. Para outros, ser aplaudido é uma circunstância significativa enquanto processo e participação, mas que pouco vale enquanto compromisso. Vivenciar o aplauso como complemento natural de processos é um congraçamento. Esperar e lutar pelo aplauso, enquanto objetivo de se manter no topo das paradas, é a vida empenhada em função de compromissos e sucessos lucrativos. O aplauso é um apoio, ou um desafio, uma continuidade do expressar-s...

Interrupção e violência

A meta não realizada, o empenho não concretizado cria uma interrupção que leva a fazer qualquer coisa para completá-lo. Defrontar-se com o incompleto geralmente cria motivação para a realização de tarefas interrompidas. Tudo que permanece não realizado, ou parcialmente realizado, se estabelece como incompleto. O que falta à sua realização decorre de interrupção. Situações interrompidas podem ser percebidas como tal quando existem propósitos. Tudo que é determinado para ser feito, ao não ser completado, cria interrupção. O propósito, desejo ou meta de realização cria uma idéia-fixa, um fanatismo responsável por violências e utilização de quaisquer meios para realizar o que se considera interrompido. Muitas situações interrompidas jamais são percebidas como tal, pois não criam referenciais de processos, e sim percepções de mera junção ou aglutinação ocasional. A continuidade de afetos e ligações amorosas, por exemplo, pode ser considerada nesses referenciais de interrupções...

Um lugar ao sol

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Um lugar ao sol é o que geralmente se deseja, embora sempre se tenha esse lugar. Querer o destaque, o brilho, ser considerado é o que se almeja quando não há satisfação com os limites vivenciados. Somos criados, educados para “ser alguém”, para fazer diferença e significar, ultrapassando as dificuldades ou facilidades existentes. Famílias social e economicamente bem situadas desejam e se esforçam para que seus descendentes mantenham os padrões conseguidos. Famílias social e economicamente com fracos acessos e com decisões cooptadas lutam para que seus filhos sejam diferentes, para que consigam sobressair e atingir melhor situação. Esses desejos estabelecem metas, referenciais de futuro, que passam a ser os contextos estruturantes das motivações e dos desejos, das decisões e empreendimentos. Surgem os lutadores, os esforçados, os que tudo fazem para manter o patrimônio herdado, ou buscado, mesmo sacrificando as próprias vontades. Querer ser alguém é, implicitamente, admitir não se...

Nostalgia

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Nada é perene, salvo o efêmero. Este aparente oximoro, este paradoxo neutralizado pela continuidade que quebra posicionamentos, é, frequentemente, vivenciado como totalidade nas situações de perda, luto, morte, doença. Os processos são caracterizados pela anomia. Quando se estabelece a generalização, os processos se perdem. Personalizar é, em certo sentido, segmentar. Ao criar posições, registramos fatos, funções, significados. As notas aciduladas, os sons ensurdecedores quebram a continuidade da harmonia, tanto quanto as definem. Os rastros vivenciais, significados pelas percepções e memórias, são, mais tarde, transferidos para o outro sob forma de registros: fatos, escritos, músicas, coisas criadas, fabricadas. Estes teares de realização ajudam a construir paisagens, referências. Percebé-los cria lembranças, tristezas, nostalgias, pois, pela insinuação mostram a evidência do outro: autores, participantes. Lembrar-se de si mesmo, assistir às mudanças e passagens signific...

Rejeitados

Ser sempre desconsiderado, percebido apenas como ocupante de um espaço faz com que o indivíduo aceite não existir significadamente, admita existir apenas em função de demandas, de respostas ao solicitado, ou faz com que construa motivações para ser alguém, para chamar a atenção, para ser considerado, nem que seja por indisciplina e maldade. Ser isolado do mundo, do relacionamento familiar, ou ser julgado inútil, desagradável e prejudicial cria os submissos, tanto quanto os revoltados. É frequente nas famílias de renda abaixo da média e cheias de planos de ascensão social (metas) considerarem os filhos “uma boca à mais, um fardo” e, como tal, desconsiderados enquanto individualidade. Submetidos à diária alegação de como eles precisam retribuir o que foi e é gasto, são cada vez mais exilados do afeto, despersonalizados e programados para mais tarde retribuir tudo que receberam. Agradecer toda a ajuda, o pão cotidiano e correr atrás da meta, da realização é uma constante esvazi...

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