Quando mudar é exercer onipotência


    

Esta situação paradoxal, que é perceber o outro e o mundo diante de si e apagá-los magicamente como se tivesse poderes para criá-los e destruí-los, é comum nas vivências estruturadas pelo autorreferenciamento. Perceber o outro, as situações, é uma mudança no universo autorreferenciado, mas, imediatamente determinar o que fazer com isso, escolher entre apagar, negar, manter, ou tirar um bom partido, é atitude onipotente que mascara sentir-se impotente de estar no mundo com o outro. É exatamente nessa transformação – onipotência como exercício de impotência – que o vazio desumanizador se instala e processa, passando a ser o determinante dos comportamentos autorreferenciados. É a vivência expressa em pensamentos como: “quem não está comigo, não me apoia ou não me dá dinheiro, não serve, precisa ser evitado, alijado, ou, a depender dos contextos, destruído”.

 
Ser onipotente significa deslocar a impotência, é a busca do lugar ao sol, querendo ser admirado e aceito para esconder medos, insegurança e incapacidades. Mudar é a meta e para isso tenta munir-se de títulos, dinheiro, amigos poderosos para, assim, brilhar, ter condição de mando e escolha. Ser onipotente, ter poder de comando, é a chave de ouro, o abra-te sésamo que transforma e conquista, o amealhado e conseguido que cobrirá e substituirá todas as incapacidades vivenciadas. É o monte de palha cobrindo arestas, penhascos de dores. É a impotência escondida, o desespero, o medo de ver rasgado o que esconde feridas, é a aflição cotidiana para manter o conseguido.
 
Sem antíteses, com ângulo zero, não há resultante. A mesmice impera, assim como o desespero ao perceber que esse ângulo zero, essa não resultante é fruto de outras antíteses, de outras situações responsáveis pelo medo e apreensão gerados pela criação de universos mágicos, ou seja, pela crença da não contradição.
 

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Completando a duologia iniciada com Emparedados pelo vazio, nesse livro continuo com a temática psicológica e a proposta de pensarmos sobre o que nos infelicita, o que nos joga no círculo vicioso abismal da sobrevivência.
 
Como romper esse círculo e estruturar autonomia? São questionamentos que possibilitam entender angústia, desespero, medo, raiva e tantas outras sensações que nos paralisam.
 
Convido vocês para a leitura dessa obra e espero propiciar reflexões sobre velhos e novos desafios da convivência e comportamento humanos!

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