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Volta por cima

Ultrapassar situações infelicitadoras - das separações afetivas não desejadas às doenças e prejuízos financeiros - só é possível quando se transforma os modelos e padrões relacionais. Ter a percepção de si mesmo, do outro e do mundo transformada e destruída por evidências, nas quais não se reconhece mais a si mesmo e onde as familiaridades são transformadas em estranhas dificuldades a palmilhar cria mundos inóspitos, mas que são, apesar de tudo, novos. Dedicar-se a este novo traz descobertas e novos situacionamentos e é exatamente aí, neste processo, que a superação se instala e muita criatividade e inovações surgem. Recursos foram perdidos, impossibilidades decretadas e nada mais fica como era antes. Isto pode ser percebido como aridez, deserto, situação sem saída ou como novos horizontes que pedem novas atitudes e outras motivações. Nada mais desesperador que reconstruir, tanto quanto nada é mais promissor quando este processo é vivido como construção, como renovação: faltam mo...

Imediatismo

Toda vez que se reduz realidade, circunstância e motivação ao foco dos interesses imediatos, pontualiza-se as ocorrências. Este autorreferenciamento implica em comportamento manipulador que resulta em coisificação de todos à volta de si. Transformado em botão propiciador, em interruptor, o outro é apenas o que vai permitir ou impedir realização de vontades e necessidades. Manipular o outro equivale a acessar botões, acessar alavancas que liberam entraves e realizam propósitos. Este comportamento caracteriza o imediatismo, onde tudo deve convergir para o que se quer. Quando desejos não são realizados, surgem desespero, frustração e irritação desencadeadores de agressividade. Comportamento agressivo é a tentativa de contornar o obstáculo para atingir o alvo, não importa como. Esta agressividade, quando não consegue fragmentar obstáculos, frequentemente se torna uma arma que atinge  qualquer familiar amado ou o melhor amigo, por exemplo. Destruir o que impede a realização dos pr...

Dissimular

Uma das estratégias frequentes de sobrevivência é a dissimulação. Negar os próprios desejos, fazer de conta que não tem necessidades, tampar carências, medos ou dificuldades é uma atitude valorizada. Nas esferas economicamente menos privilegiadas, quanto mais se sente discriminado, mais se mantém no faz de conta, mais aparenta ser o que não é, mais valoriza o fingimento. Dizer o que pensa, expressar fraquezas, discutir é considerado “ feio ”, “ é grosseria ”. Não vivenciar faltas e problemas, tanto quanto negar as experiências desagradáveis, se constitui em comportamento desejável. Estas atitudes omissas privilegiam crimes e desrespeitos à individualidade. Apanhar do marido e esconder é uma maneira de continuar a ser uma família respeitável; ocultar os abusos sexuais presenciados é um sacrifício valorizado para manutenção da ordem familiar. É a submissão às agências públicas, ao que pode ser considerado bom, o equivalente do “ arrumar para dominar ”. Criar e manter aparências, nela...

Consistência

Consistência é a firmeza resultante de ser inteiro, sem divisão. Aceitando-se, o indivíduo realiza suas possibilidades e necessidades como resultantes de contextos intrínsecos às suas motivações. Nada é colado, nada é mantido por aderências circunstanciais. Ao se relacionar com o outro, com o que está diante dele, com ele próprio, ele integra os acontecimentos, e percebe congruência ou incongruência, propósitos ou despropósitos. Os valores e significados são resultantes, não são prévios ao comportamento e mesmo quando os valores são prévios, a continuidade relacional é que vai determinar as motivações. A falta de regras e escalas prévias impede vivências de culpa e de medo. Sempre participando, não se omitindo, as situações são definidas pela totalidade que as caracteriza e não pelos resultados e anseios. Detendo-se em aspectos que são favoráveis ou evitando os desfavoráveis, o indivíduo dramatiza a configuração do que ocorre: “o preciso destruir para me salvar” é um lema que quan...

Artefatos

Transformado em objeto, em coisa alienada em função de demandas, medos e desejos de terceiros (principalmente os estruturantes relacionais, via de regra os pais) o indivíduo é transformado em receptáculo de valores, regras e ensinamentos de como bem sobreviver. Esta caixa (de ressonância) recebe muitas coletas e depósitos, mas, a necessidade de matéria prima para compor representatividade e não fazer com que os outros fujam diante dos massacres sobre si estampados, obriga a buscar máscaras, véus, coberturas que disfarcem. Apesar de massacrados pelo processo de coisificação, desumanizados e alienados de si mesmos (não há questionamento), onde só a necessidade satisfeita significa prazer e tranquilidade, o ser humano permanece uma possibilidade, uma abertura para transformar. Sua estrutura humana enseja isto, mas, sem dados relacionais, seu posicionamento situacional sobrevivente cria limite sinalizador do que vai permitir ganhos, do que vai permitir se dar bem ou não, ser aceito ou ...

Quando a gratidão é avidez

Não querer abrir mão do que conseguiu, seja no âmbito profissional, seja no afetivo é sempre explicitado por esforço e dedicação, frequentemente traduzido por gratidão, por agradecimento pelo que conseguiu e ou por ser amado, por ser considerado e querido. Esta aparente submissão, entrega e disponibilidade, nada mais é que a expectativa de alívio diante do que não se quer perder. Neste contexto, ser grato é saber que tudo está mantido, nada se perdeu; a paz, a segurança e conforto continuam. A família que reconhece, os deuses que ajudam, as instituições que possibilitam, todos estes apoios submetem e suscitam atitudes gratas, geram agradecimento. Sentir-se grato é, assim, sempre um depois, resulta de empenhos, atitudes e desempenhos reconhecidos e gratificados. Estes processos em tempos diferentes mostram interseções que precisam ser consideradas. Buscar sucesso profissional, querer manter satisfação afetiva pela continuidade de situações já ultrapassadas e inseridas em outros cont...

Homem e animal

Somos iguais aos animais enquanto organismo regulado por catabolismo e anabolismo. As necessidades sinalizam, em maior ou menor escala, orientando e determinando a sobrevivência animal e nós, humanos, somos os mais desenvolvidos animais da escala biológica. O ser humano deixa de ser apenas um animal quando transcende a sua estrutura imanentemente biológica e através da percepção de si, do outro e do mundo, estabelece relacionamentos que realizam suas possibilidades. É através do prolongamento destes processos perceptivos relacionais que ele pensa, cogita, utiliza, respeita, admira ou esmaga os que estão diante dele, ou ao seu lado. Wittgenstein dizia: “a vida é um problema intelectual e um dever moral” , mais concisamente, ele falava das apreensões cognitivas e morais, falava da ética do humano. Sobreviver, levando às últimas consequências, aniquila. As guerras, as drogas, as torturas e imolações em função de conveniências, de manutenção e realização dos próprios desejos, m...

Dinheiro pode ser uma droga viciante

Quando se acumula qualquer coisa, principalmente dinheiro, se está acumulando o que pode significar garantia, tranquilidade, prazer ou alívio da ansiedade. Acumular dinheiro ganho pelo trabalho com o intuito de  enfrentar quaisquer vicissitudes é uma maneira de eternizar ganhos, de enfrentar perdas. Acumular dinheiro ganho ao acaso - roubos, corrupção, tráfico de ilícitos, enfim, o dinheiro que não é fruto de um trabalho legalmente sancionado - é uma maneira de estocar equivalentes de estupefacientes, de drogas que restauram imagens de poder, e que também aliviam tensão, ansiedade e desespero. O dinheiro usurpado é como uma droga sempre necessária, mas nada valorizada. Precisa-se dele, ele precisa ser usado, mas, destruído desperdiçada e avidamente. Estes  comportamentos geraram rótulos, clichês como: “foi bebido pela bebida, cheirado pela cocaina” . A situação chega a tal dissipação, que apenas resta a droga, o vício destrói o indivíduo. A falta de limite caracteriza o ...

Destruidores

O indivíduo realiza destruição utilizando tudo que está à sua volta. A não aceitação estabelece metas e em função delas se vive. Não existe o presente, não existe o limite. O limite é vivenciado como um detalhe, um trampolim. Em alguns casos a família é manipulada para satisfazer desejos e necessidades. Existem os que lançam mão dos próprios filhos para realizar anseios de ganância e realização do que consideram prazer sexual, como na pedofilia por exemplo. Existe a usurpação dos direitos dos parentes por meio da apropriação de seus bens e pertences. Em outras situações, comunidades, ordens religiosas, instituições de ensino são transformadas em tribunas, púlpitos à partir dos quais as ambições e propósitos se realizam. Tudo é destruído e onde tal pessoa põe o pé nada frutifica, tudo é canalizado para seus desejos de afirmação e ganhos. Escolas, Igrejas são destruídas ao abrigarem tais indivíduos, pois tudo tem que convergir para a realização de seus planos. Ditadores e muitos go...

Construtores

Aceitar os próprios limites, vivenciar o presente cria harmonia, pacifica e permite construir, organizar o que está à volta. Da simples limpeza de móveis à organização de sociedades enquanto deveres, direitos e justiça, encontramos harmonia, tranquilidade, certeza. É a confiança, a regularidade do que está diante - que independe da manipulação e conveniência - que realizam condições de estar em tranquilidade. Não discutir direitos, pois tudo é legítimo, estabelece certezas. A finalidade, o ter que conseguir não são fundamentais, os processos ocorrem e são definidos e realizados pelas suas próprias condições e contradições. Saber que a realização de funções depende das estruturas existentes, que alterá-las em função de resultados, quebra a sequência e legitimidade de ocorrências, faz com que impere satisfação, segurança, sinceridade, sem mentiras, sem estratégias; se vive o que acontece e cada contradição indica nova direção, desafio este percorrido como novo assunto, esclarecedor...

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