Banalidade da desumanização
Hannah Arendt escreveu sobre a banalidade do mal, e ele nos é evidenciado cotidianamente. Mas, hoje em dia, achar que se pode entender, explicar e resolver toda e qualquer coisa nos expõe à banalidade do drama, da desumanização. Há um como fazer, agir e operar, découpé para conseguir resultado e compreensão dos acontecimentos.
Quando a operosidade, a ação, passa a ser a chave de comando para resolver situações, o mundo é reduzido a fazer, a bater prego, a quebrar arestas. A ação orientada na solução dos problemas é, frequentemente, cega em relação ao que a produz. Sem globalização da totalidade a parcialização se insinua, desequilibrando seja o que for que ela resuma. Tudo é engolido, pois é liquidificado, processado pelas máquinas do poder, que conseguem transformar crimes em limpezas de áreas e territórios, para que quem eles consideram cidadãos de bem caminhem e vivam. Destruir, matar não é a questão para essas pessoas. O importante é o que conseguirão de lucro e vantagens quando isso acontecer. Pensar nas áreas indígenas, nos territórios de guerras, nos bordéis com crianças raptadas para enriquecer orçamentos é exemplificador dessas questões.
O lucro, a ganância, o acúmulo de vantagens e fortunas são as alavancas que transformam o drama humano – a fome, as doenças, as neuroses e suas consequências comportamentais – em situações comuns, banais que precisam ser transformadas. O corpo mutilado, destruído é o que alimenta guerras e traz lucro. Os rios, morada de peixes, alimento que sustenta populações, vira o caminho mais eficiente para derramar mercúrio e outras substâncias tóxicas decorrentes de processos extrativistas.
O drama, o medo de ter seu filho roubado pelas redes de venda de órgãos e lucro dos que traficam, ou para aumentar os bordéis infantis daqui e de além mar, são considerados insurgências processuais que precisam ser saneadas com novos acertos dos poderosos. A atitude atual é a de que tudo pode ser resolvido. Não tem dor, não tem problema, não há porque desesperar: sujou, lava, quebrou, conserta. Nesse contexto, saber como fazer e ter poder são facilidades que resolvem tudo e apagam medo e desespero. É a banalidade da desumanização, é a negação existencial do desespero e da angústia. É o caminho assumido por pais, educadores e políticos, para quem tudo é resolvido com soluções simplistas e ilusórias, remédios prescritos e indicados pelos que cuidam de nós.
Delegar solução resulta de adiar e negar problemas e esse é o caminho que despersonaliza e coisifica o humano. Questionar essa aberração é transformar a convivência com o que problematiza.
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