Controle e deslocamento
A não aceitação do que se vivencia gera uma série de medos, curtos-circuitos que provocam apagamentos e omissões. Essas apreensões frequentemente são caracterizadas por arremedos, fac-símiles do desejado.
O controle, o estabelecimento de regras e limites, muitas vezes faz o indivíduo se sentir comandando ou “dando as cartas”. É o faz de conta necessário para esconder desejos, maldade, incapacidade de discernir ou perceber o que aconteceu. É equivalente a levar o olho para a lua a partir do olhar para o dedo que a indica. Chega o momento em que o dedo é apenas o que é visto. Tudo passa a ser assim incompreendido e modificado. Kafka expôs isso muito bem em Parábolas e Fragmentos:
“Os leopardos invadem o templo e esvaziam os vasos sagrados...
O fato não cessa de reproduzir-se, até que se chega a prever
o momento exato e isso entra a fazer parte do ritual”.
Acontece que, nessa história os sacerdotes são fundamentais para cuidar e manter a ideia e o templo. A manutenção, o resultado, substitui o que acontece. Essa substituição é danosa, pois transforma crença em ritual, assim como, em outros casos, transforma mentiras em verdades, perigo em segurança: as barras de proteção e sinalização são a segurança que encontramos e buscamos.
A distorção, a parcialização usurpam as vivências de totalidade e tudo é parcializado e destruído, apequenando as infinitas possibilidades humanas. É o “cercadinho” onde se deixam crianças para não sujarem nem estragarem a casa. É o curral que protege e garante a sobrevivência e os lucros do cuidador. É enganador e também expõe o que pode ser controlado.
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